Os melhores filmes de 2015 (e outras listas)

Antes de mais nada, irei lançar ‘Á sombra do centauro’, meu segundo livro, no dia 27/01/16 – isto é, muito em breve. Estão todos convidados para ir SESC Palladium, a partir das 19h. Mais informações aqui

Hábitos são hábitos porque persistem mesmo quando não fazem sentido. São ações pouco acima dos tiques nervosos, pouco abaixo dos rituais. As listas e comentários abaixo são hábitos porque, tivesse eu algum escrúpulo ou respeito próprio, não os publicaria. Em um ano longuíssimo no trabalho, li muito e desordenadamente, vi pouco e inapropriadamente.

Nos livros, cuja lista não se resume aos publicados no ano, Thunder at Twilight é um trabalho de história de leitura leve e interessantíssimo, sobre Viena às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Madame Bovary, que só tive a decência de ler agora, merece a classificação de romance quintessencial. Rilke Shake poderia ter sido o melhor livro de poesia lido em 2015 se Jóquei não fosse arrebatador – e também a melhor obra em letra de imprensa a qual dediquei meu tempo no ano.

Antes de ir aos filmes, vale passar por outras obras de audiovisual (palavra que eu gostaria de meter entre dois caminhões de aspas). Ver Mad Men de cabo a rabo foi interessantíssimo, talvez porque a experiência tenha muito de romanesco, no mesmo sentido usado para Madame Bovary no parágrafo acima. Em sentido oposto à extensão de Mad Men, a estranheza de Tá tranquilo, tá favorável, o delicado trabalho de superposição simbólica de The less I know the better e a força bruta de Baile de favela merecem ser lembrados por algum tempo.

Não usarei a composição dos anos anteriores para abordar os filmes ruins, até porque não me lembro de ter visto nada especialmente ruim no ano para além de Um Pombo Sentou em um Galho Refletindo Sobre a Existência, que talvez devesse existir somente como título hipotético. Divertida Mente, não é ruim, mas insatisfatório, talvez, e parece mais fraco a cada dia.

É cada vez mais difícil separar o que é de 2015 e o que não é: acabo separando os comentários entre ‘aquilo que foi lançado mais ou menos em 2015’ e os demais. Dentre os demais, Furyo – em nome da honra, um filme de campo de concentração altamente estilizado, é interessante, e O Abutre, excelente, acabou caindo em um limbo entre anos. A Conversação, Morangos Silvestres e Memórias do Subdesenvolvimento poderiam muito bem estar numa lista que transcende recortes anuais.

Se pudéssemos extrair apenas a interpretação de Regina Casé em Que horas ela volta?, o filme certamente seria um dos melhores do ano, quem sabe da década. Mas como o trabalho dela é indissociável dos personagens mal construídos, fica apenas o breve reconhecimento. Perdido em Marte, independente da correção científica que parece ser valiosa para alguns, mas que para mim importa tanto quanto o número de abdominais diários de Matt Damon, é bastante divertido, mesmo com a mão pesada de Ridley Scott pesando ainda mais no final.  Acima das Nuvens é um trabalho de espelhismo curioso. O ano foi positivo para o terror: A Corrente do Mal é tenso como deve ser graças à direção firme e apesar do roteiro idiotíssimo, e O Babadook é uma alegoria muito prazerosa. E aproveitando a questão alegórica, 50 Tons de Cinza só não entra na lista abaixo porque são dez lugares, não onze. Vamos aos melhores:

10 – The Lobster

9 – Jauja

8 – Phoenix

7 – Foxcatcher

6 – Slow West

5 – O ano mais violento

4 – Ex-machina

3 – O Dia do Galo

2 – A Gangue

1 – Adeus à Linguagem

Abraços e até 2017!

Os melhores filmes de 2014 (e outras listas)

Se eu fosse uma pessoa decente, este post não existiria. Em 2014 minha frequência no cinema foi, sendo muito generoso, ridícula. Mas tradição é tradição (romance é romance, amor é amor, e um lance é um lance). A lista abaixo deve ser lida, portanto, com a ressalva de que eu deixei muita coisa boa de fora simplesmente por não ter visto.

Se serve de desculpa, um dos motivos paraminha ausência da sala escura foi que em 2014 eu li mais do que em qualquer outro ano. E para fazer uma lista muito sólida, com três livros que não são menos do que excelentes, recomendo a viagem meio paranoica, meio erudita de História abreviada da literatura portátil, de Enrique Villa-Matas. Para uma leitura sentimental (mas definitivamente não sentimentaloide ou derramada), Historia del llanto, de Alan Pauls. E Short Movies, de Gonçalo M. Tavares (sendo que este não deixa de aliviar um pouco a pobreza do meu ano cinematográfico).

Foi também um ano em que eu lancei coisas escritas, logo, recomendo o meu primeiro livro, 365 Mentiras. E recomendo também meu conto À sombra do centauro. Ambos excelentes. Observem que esse parágrafo consolida a completa falta de decoro do autor: além de fazer uma lista de melhores filmes sem ter ido muito ao cinema, ele ainda enfia um merchandising desavergonhado no meio do texto.

E o ano na música se resume em uma coisa: BOTA O COPO PRO ALTO. O resto é barulho.

Indo aos filmes (o que eu tentei evitar até agora), cabe avisar que não teremos lista dos “melhores filmes de qualquer ano vistos em 2014”. É, meu amigo, a coisa foi feia.

Uma coisa boa de ver poucos filmes é que você acaba vendo menos filmes ruins também (minha desculpa anual). O que não quer dizer que eles não existiram. Listo três, do menos ruim pro pior: A Grande Beleza (que começa tão bem…), Sob a Pele (que não é de todo ruim, mas é ruim), e Ela (que é bastante ruim mesmo).

Sempre há os bons filmes que não chegam na lista dos 10. Valem a visita Garota Exemplar (que se perde um tanto no final), Amantes Eternos (que deveria ter mais John Hurt), As Duas Faces de Janeiro (um clássico instantâneo do gênero SuperCine) e O Ministro Francês (apesar de tudo). Agora, aos dez melhores:

10 – Locke

9 – O homem duplicado

8 – Hoje eu quero voltar sozinho

7 – Relatos Selvagens

6 – Nebraska

5 – Boyhood

4 – O Homem Mais Procurado

3 – Praia do Futuro

2  – Era uma vez em Nova Iorque

1 – O Lobo de Wall Street

E até ano que vem 🙂

Escrevendo sobre escrever – 1

É hora de voltar a escrever.

Não que eu não esteja escrevendo, afinal, a sobrevivência na internet demanda o cultivo constante da comunicação letrada. E por não confiar na memória, costumo redigir minhas aulas – essa década comprimida chamada 2014 me deu até o início de carreira de professor, vejam só –, o que resulta em rotinas longas de escrita diária. Dizer que não estou escrevendo é, em uma interpretação literal, falacioso; a escrita como fim em si, contudo, é o que voltarei a fazer.

Estava pronto para começar até o momento em que recebi um sinal. No prólogo de “História universal da infâmia”, leitura iniciada hoje, Borges me avisa: “Leer , por lo pronto, es una actividad posterior a la de escribir: más resignada, más civil, más intelectual.” Dar de cara com uma de suas referências dizendo que o ato que você está prestes a cometer é relativamente bárbaro não é fácil. Pensei em deixar de lado o ímpeto, ler um pouco mais, meditar sobre a irresponsabilidade de despejar mais uma combinação longuíssima de palavras no mundo. E resolvi que, obrigado pelo conselho, Borges, mas é hora.

O “365 Mentiras” era um exercício e acabou como livro, hoje já tem vida própria. Posso amparar, dizer sinceramente que é um livro legal, divulgar, mas está pronto. Outras tentativas de trazer de volta textos antigos, tirar a poeira, ver se eles conseguiam encontrar o lugar deles sem mim, não deram muito certo. O dia desses textos chega, mas não por agora.

O momento é de arregaçar as mangas, que no calor do cerrado nada mais são que abstrações gastas, e voltar a escrever. Elaborei ao longo do ano a estrutura de uma história. Trechos escritos em rascunhos de artigos, nos intervalos entre voos, nas manhãs de desemprego. Pode ser que ela vire algo legível. Se livro, se novela, se outra coisa, não sei. Pode até ser que não dê em nada. As histórias são assim, começam de um jeito e quando você presta atenção, não é que a minha Anna recusou o convite de Vronski? Pois bem.

A ossatura está pronta, agora é escrever de verdade. E a ideia é sair com uma história que inspire diálogos como este narrado em primeira pessoa por Mario Sérgio Conti em seu livraço “Notícias do Planalto”:

“Recebi o ministro [Jorge Bornhausen] em minha sala, junto com Tales Alvarenga e Leite. Ele lamentou a crise provocada pelo irmão do presidente. Disse que o Ministério fora totalmente reformulado e o governo estava recomeçando em novas bases. Não pediu que a entrevista não fosse publicada, mas indagou se nela havia fatos graves.

-De que tipo, ministro? – perguntei.

-Por exemplo, tem corrupção?

-Tem.

-Tem drogas? – prosseguiu Bornhausen.

-Tem.

-Tem sedução?

-Tem.

-Tem rabo?

-Como, ministro?

-É, tem rabo, homossexualismo?

-Não, não tem.

Bornhausen interrompeu o questionário. Conversamos mais um pouco e ele foi embora.”

E vamos lá, conversando ao longo do caminho. Pode ser que em algum tempo não tenha história. Ou tenha uma daquelas enormes, épicas, marcos de uma geração, vastas, sobre a vida, a morte, a efemeridade da existência, o linho, o deserto e a infâmia borgeana  – e, quem sabe, até rabo.

X-Men: Dias de um Futuro Passado

O texto, obviamente, contém revelações sobre pontos importantes da trama.

-Escrever sobre “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” é, inevitavelmente, escrever sobre toda a série X-Men (da qual excluo os dois erros que são os filmes solo do Wolverine), e, incidentalmente, sobre os filmes de super-heróis de 2000 até hoje. E se o “X-Men” original era um filme curto e sóbrio para seu próprio bem, o filme novo aproveita que histórias sobre pessoas especiais (e fantasiadas) podem ser longos, mas talvez haja sobriedade demais na mistura.

-Ou confundo sobriedade com a mão pesada de Bryan Singer. Se levar os mutantes a sério era necessário na época em que as memórias de “Batman e Robin” estavam frescas, hoje filmes como “Os Vingadores” e seus derivados exageram no peso dramático – e, acessoriamente, nas sequências longuíssimas com efeitos especiais genéricos, mas volto a isso em breve. “X-Men: dias…” padece desse mal, com seus dutch tilts e câmeras lentas sem necessidade. Nesse ponto, a inventividade de Matthew Vaughn no episódio anterior da série era mais apropriada – havia o drama, mas havia também os jogos de planos e telas divididas para dar um respiro ao espectador. O que não quer dizer que Singer tenha construído um dramalhão – se é para escolher um só momento, a cena em que Quicksilver manipula um tiroteio é divertidíssima.

-E se falamos da brevíssima evolução histórica do gênero e seus efeitos sobre “X-Men: Dias…”, impossível ignorar que as histórias ganharam em ambição. Isso por um lado é bom – de minha parte, ceteris paribus, histórias mais ambiciosas são melhores que histórias menos ambiciosas -, por outro, obriga os fazedores de filmes a condensar elementos demais em uma história curta. O que explica a segunda cena do filme, um amontoado de diálogos expositivos, necessários para resumir o que poderia ser um filme inteiro, e de longe seu pior trecho. E todos nós sabemos o peso do golpe de ter sua pior cena nos instantes iniciais.

-Claro, explicar viagens temporais e outras dimensões nunca foi tarefa fácil, salvo nas sequências de Austin Powers, mas não custava nada fazer um trabalho mais caprichado nessa sequência. De resto, “X-Men: Dias…” faz um trabalho extraordinário em amarrar as pontas de outros quatro filmes.

-Falando em fusões espaço-temporais, uma nota: na versão dublada do primeiro X-Men, a voz de Wolverine era feita pelo mesmo dublador que o do desenho das manhãs da Globo. O era bastante engraçado, tendo em vista que a voz áspera indicava alguém mais velho que o Hugh Jackman de antanho. E não é que a voz do Hugh Jackman de hoje não está ficando parecida com a do dublador?

-E se o tema é o das semelhanças, o presidente Nixon do filme é idêntico ao presidente Kalil.

-Nixon, Vietnã – o passado do filme é em 1973, mas não há a sensação de que se trata de um filme de época, especialmente porque não se optou por fazer uma caricatura da época, como em filmes como “Trapaça” (uma bomba, a propósito). A direção de arte não é chamativa, sem deixar de apresentar surpresas para quem olha para as bordas da tela. Um exemplo é a bela estação de metrô parisiense, que aparece em pouquíssimos takes, e deveria aparecer mais. Como nada é perfeito, a atmosfera festiva das conversações de paz de Paris é inventada: o processo de negociações durou quatro anos e, quando chamou a atenção do público, atraiu mais manifestantes com faixas do que transeuntes feliz de bandeirinhas em punho.

-No campo das alterações cosméticas, mais compreensível é a suavização da maquiagem da Mística, para que Jennifer Lawrence apareça mais. E Hugh Jackman está cada vez mais sólido. Impressionante como ele fica mais forte a cada ano que passa.

-De pedra mesmo é a cara de Michael Fassbender, muito bem aproveitada pelos closes.

-James McAvoy, um Professor Xavier superior a Patrick Stewart, mostra que sabe usar pausas nas falas como recurso de interpretação. E poderia ter rendido mais, não fosse a insistência do diretor em transformar a subtrama do antídoto à sua mutação em uma analogia barata à luta contra as drogas – até um ponto vai, mas na hora em que a câmera se aproxima lentamente de uma seringa abandonada sob um foco de luz, a coisa fica de doer.

-Talvez não seja uma analogia barata, mas as máquinas que levam os robôs sentinelas se parecem com grandes caixões voadores. Ou com enormes barbeadores, não sei. E há algo de renascentista na brutalidade dos takes em que mutantes são mortos pelos robôs – o Colosso partido ao meio e a Tempestade trespassada por uma estaca metálica, em tons escuros, evocam os quadros absurdos, bíblicos, dos massacres de bebês. E bíblica também é a escala do final, voltando ao ponto citado no começo, das sequências longuíssimas com efeitos especiais genéricos. Certamente a cena dupla – no passado, Magneto erguendo um estádio para fazer o presidente dos Estados Unidos de refém; no futuro, uma batalha entre robôs sentinelas e mutantes nas montanhas da China – não é das piores do gênero. Quem sobreviveu às quinze horas da batalha final do insuportável “Os Vingadores” sobrevive a qualquer coisa. Mas, ainda assim, fica a sensação de deslocamento dentro do filme, como se fosse obrigatório fazer algo “épico” (com uma imensidão de aspas) para encerrar um filme, sem qualquer conexão com as questões e dramas muito menos – porque humanos – do resto da trama.

-Na revisão, “X-Men: Dias de um Futuro Passado” é mais um filme instável, com uma bela trama e ótimos momentos prejudicados pelas intrusões desnecessárias de seu diretor e algum desleixo no polimento dos diálogos, do que um filme ruim, o que ele de fato não é. Não é um filme perfeito, mas é, por enquanto, uma boa conclusão para aquela aposta de 104 minutos lançada em 2000.

 

ps: Escrever e postar com pressa dá nisso: esquecer as coisas.Na revisão, cortei para inserir depois – e me esqueci –  o seguinte trecho: “Sabem o monólogo de Bolívar Trask? É péssimo, eu sei. Mas o personagem é redimido pela interpretação muito digna nas outras cenas. E pela grande, enorme (sem trocadilhos) sacada de fazê-lo sair de dentro de ‘A liberdade guiando os homens’.

Ninfomaníaca – parte 1

Como sempre, o comentário revela a trama do filme. Estejam avisados.

1 – Antes mesmo de tratarmos do filme, tratemos de um aspecto extra-filme: sua divisão em duas partes. A não ser que a segunda parte conte com alguma reviravolta da trama que venha dar outro sentido ao que acontece na primeira (e nada aponta nesse sentido), e que para isso a duração de quase quatro horas da história seja inevitável, nada justifica a metragem gigante e a consequente divisão. Nada além de um amor muito grande de Lars Von Trier por sua obra ou, razão mais provável, nada além de saber que o público muito provavelmente pagará dois ingressos para ver um só filme. Agora, ao filme.

2 – A teoria do autor está morta e talvez falte pouco para seu enterro, mas é inegável que Lars Von Trier é o grande responsável por seus filmes. Ao contrário do cinemão de shopping, por assim dizer, com seus filmes feitos realmente em comitê (atores produzem os filmes que estrelam, produtores influenciam fortemente o roteiro, assistentes de direção e supervisores de efeitos especiais dirigem trechos longos, etc), Lars escreve, dirige e tem o nome no cartaz como chamariz promocional. Isso não seria um problema se ele não fosse sutil como um hipopótamo bravo numa confeitaria vienense. Se um personagem fala “ele me penetrou três e depois cinco vezes”, lá está na tela, em caracteres sobrepostos “3 + 5”. Se o momento é de fazer analogias entre o sexo e a pesca, estão lá todas as imagens de iscas, anzóis, varas e peixes numa sequência de quase um minuto. Se alguém diz que viu muitos pênis, uma montagem com trinta, talvez mais, pênis. E assim por diante.

3 – A redundância não é apenas de imagens, mas estrutural. Se o personagem de Stellan Skarsgard serve no inicio como justificativa válida para que a personagem de Charlotte Gainsbourg comece a contar sua história, em vinte minutos ele se torna uma máquina de repetir o que acabou de ser dito. Não seria exagero dizer que metade das suas falas são repetições do que acabou de ser falado ou mostrado. Não deixa de ser uma pequena ofensa ao espectador que está prestando atenção ao filme.

4 – Outro aspecto da falta de sutileza de Lars é mais dúbio. O filme se chama Ninfomaníaca e há uma abundância de sexo.  Se o objetivo é provocar uma espécie de dormência, de anestesia em relação ao sexo, talvez semelhantemente ao que sente a protagonista, o objetivo foi cumprido com louvor. Mas é interessante pensar que o filme poderia se tornar mais interessante se fosse uma história de ninfomania sem sexo, em que o impacto gráfico do ato sexual fosse deixado para apenas uma ou duas cenas no final, assim como o Tubarão sem tubarão. Do jeito que está é difícil decidir se a tal dormência pelo excesso não acaba sendo anulada pelo esgotamento rápido do tema.

5 – Ainda sobre o esgotamento do sexo, tema central do filme, há quem diga que o elemento central da arte é a surpresa. Nesse sentido, o esgotamento é potencializado pela condução pesada, intrusiva, do diretor, que sufoca a possibilidade de surpresas.

6 – Ninfomaníaca é certamente um filme bem atuado. Se excluirmos, claro, os já citados Stellan Skarsgard e Charlotte Gainsbourg, que pelo menos nessa primeira parte não representam personagens, mas tipos ideais: ela é o impulso seguido de culpa, ele é a contenção civilizada benevolente. No extremo oposto está a personagem de Uma Thurman, uma mulher cujo marido foge de casa devido seu envolvimento com a jovem Joe (Charlotte, interpretada quando jovem por Stacy Martin). A personagem de Uma tem reações reais e plausíveis, ainda que insensatas na maior parte do tempo, e a interpretação dela dá credibilidade a uma mulher que, traída, leva os filhos para conhecer a “amante” do marido e oscila entre o desespero e o ódio. Não deixa de ser um feito conseguir transparecer tudo isso em apenas alguns minutos de tela com falas não necessariamente bem escritas. E é curioso ver Christian Slater em um papel delicado, ainda que exigente no segmento de sua hospitalização.

7 – Uma decisão inteligente foi não dar um contexto espacial e temporal preciso ao filme. Supõe-se que a história ocorre no Reino Unido porque os personagens falam inglês e dirigem do lado direito, mas é só. Os objetos de cena podem ser de qualquer década dos anos 1970 para cá e não há referências à cultura popular. Isso poupa o filme da tarefa de costurar o tema da ninfomania e do sexo a contextos sociais, o que é bom. A história é sobre um indivíduo, suas ações, consequências e sua culpa; aliviar o peso ao dividi-lo com o contexto seria injusto.

8 – O amor aparece muito pouco no filme, quase como uma névoa. Uma pequena frase do começo (uma amiga da protagonista, sua companheira de aventuras sexuais, diz que o amor é o tempero do sexo, ou algo semelhante, no que é prontamente rechaçada) volta nos últimos minutos de projeção. A protagonista supõe estar apaixonada. Dez segundos depois, diz em tom de desespero que não sente nada. Vejam aí a relevância da montagem: dez segundos a menos e Ninfomaníaca ameaçava terminar no mesmo tom de redenção pelo amor da mais açucarada comédia romântica.

9 – Ninfomaníaca é, portanto, um filme não vazio de méritos, mas que padece do mal de excesso, de forma semelhante à protagonista. E é um filme que, de mais a mais, já foi feito pelo poetinha quando cantou no Testamento: “(…) o amor sem paixão, o corpo sem alma, o pensamento sem espírito (…) e lá um belo dia, o enfarte; ou, pior ainda, o psiquiatra.”

O Lobo de Wall Street

Como sempre, o comentário revela pontos essenciais da trama. Estejam avisados.

1 – Acredito que a grande maioria das pessoas que escreveram ou venham a escrever sobre “O Lobo de Wall Street” sentiram (ou sentirão) vontade de abrir o texto falando sobre como o filme é cheio de “energia”. Foi minha primeira ideia. Mas energia não é uma boa forma de descrever a grande qualidade do filme, uma vez que além dos ecos esotéricos, o termo é impreciso: um petroleiro consome e carrega muita energia e nem por isso anda rápido. O termo certo é agilidade, que serve tanto para manter compreensível uma história com muitos personagens e reviravoltas quanto para usar uma quantidade imensa de recursos narrativos – de travellings a vozes em off, passando por flashbacks, mudanças na razão de aspecto e quebra da quarta parede – sem tornar a obra cansativa.

2 – Um aparente paradoxo: talvez o melhor trecho do filme seja um de câmera fixa, take único, só um ator em cena e sem diálogos – os segundos de comédia muda nos quais Leonardo DiCaprio se arrasta até uma Lamborghini. Paradoxo apenas aparente porque a simplicidade também é um recurso poderoso.

3 – A agilidade também tem seu preço. Em seu trecho final, “O Lobo…” ameaça terminar mais de uma vez em sequências aceleradas, mas emenda com uma sequência lenta em seguida. Bom para a história, mas talvez nem tanto para o filme.

4 – Se pensarmos no paradigma de Syd Field (cento e vinte minutos de duração, três atos, dois pontos de virada, exposição da história pelas imagens), “O Lobo…” é um animal gorduroso, repleto de excessos que escondem a estrutura principal. Um tempo razoável de filme, estimo que algo em torno de quarenta minutos, poderia ser cortado sem prejuízo para a narrativa. Mas sem esses quarenta minutos, muito da exuberância do filme iria embora, e sem o excesso – o longo diálogo de Jordan e Donnie antes de fumar crack, a entrada da banda com as strippers, o quarto de hotel devastado em Las Vegas, as longas explicações sobre os efeitos do quaalude – “O Lobo…” seria apenas um filme sobre fraudes financeiras, logo, perderia seu tema central.

5 – Comentário final sobre a forma. Martin Scorsese, Thelma Schoonmaker e Terence Winter (diretor, montadora e roteirista, respectivamente) sabem que o espectador moderno absorve informações rapidamente, mas sabem também que é importante assinalar o que precisa ser entendido muito bem. Tanto é que os diálogos fundamentais são feitos do jeito mais simples: plano e contraplano, plano e contraplano. É assim quando o jovem Jordan conversa com seu mentor no início da carreira, é assim quando Jordan expõe a lógica de seu mundo (ou a falta dela) a seu pai, é assim quando Jordan tenta se mostrar acima da lei para Patrick, o agente federal.

6 – Jordan Belfort começa o filme usando um telefone e recebendo drogas. Quase morre na cena que abre o ato final por estar drogado e ter um fio de telefone enrolado no pescoço. Bela rima.

7 – Breve e limitadíssimo resumo de Max Weber para seguirmos adiante: países protestantes são mais ricos porque a concepção de trajetória para o paraíso de tais grupos religiosos exige uma conduta terrena relativamente austera e voltada para a obtenção de prosperidade material, sinal de favorecimento aos olhos de Deus – uma profecia de predestinação divina cujo anúncio provoca seu próprio cumprimento. O que Weber chama de ética protestante mantém uma relação simbiótica com o espírito de geração de lucro do capitalismo, e ainda que o capitalismo seja o sistema econômico com o melhor histórico de produção de riqueza até o momento, a superfluidade material, assim como a inobservância de preceitos religiosos, estão fora da mistura responsável por transformar Primeiro Mundo em Primeiro Mundo. Academicismo passado, o debate sobre ética e capitalismo abunda no cinema estadunidense, em filmes que em sua maioria retratam o sucesso econômico como antípoda da ética, de “Sangue Negro” ao “Lobo…”, passando por “Chinatown” e “Os Cabeças de Vento”. E não é raro que o binômio “sucesso econômico-falha moral” seja enunciado como característica fundamental da formação dos Estados Unidos. É, portanto, natural que em “O Lobo…” o protagonista grite “Isso é América” para uma plateia de operadores de negócios ensandecidos, ao anunciar que iria continuar à frente de um esquema financeiro ilícito. Mas essa observação é tão limitada quanto o resumo de Weber que abre o parágrafo, e o filme apenas resvala no caráter “nacional” do comportamento errante de Jordan Belfort.

8 – É difícil fazer comparações e elucubrações históricas a partir do filme porque, como o protagonista questiona, qual a razão de viver na realidade? “O Lobo…” leva a sério isso e expõe não apenas comportamentos extremos, mas também raios verdes que atravessam a tela, carros que mudam de cor enquanto correm e aviões que explodem sem que quase ninguém perceba. Um personagem tem dentes “tão brancos que parecem fosforescentes”. E é um dos grandes méritos do filme inserir isso tudo de modo quase natural – ou ao menos, natural dentro de sua própria lógica.

9 – A realidade existe, contudo. E um dos elementos muito reais é a classificação etária do filme no Brasil, com livre entrada para maiores de dezesseis anos. O que é bom: sinal de que nudez e abuso de drogas devem lá ter suas limitações, mas não são a coisa mais grave do mundo, como significaria uma censura para menores de dezoito anos. Colabora para isso o fato de que a violência no filme relativamente moderada e tratada com a seriedade que o tema merece, não com uma abordagem cômica e imbecilizante tão comum atualmente.

10 – Leonardo DiCaprio, por fim. A idade está lhe fazendo bem, até deu a ele um jeito de arquear as sobrancelhas que lembra Jack Nicholson, o lunático oficial de Hollywood. Nos monólogos à frente da equipe, ele às vezes prega com o fervor de um televangelista da madrugada (ecos da ética protestante dali de cima, talvez), às vezes exorta seus comandados com o vigor de um general da antiguidade (e os excessos, grande tema do filme, não deixam de ecoar os grandes bacanais romanos).

11 – E mesmo com tanta palavra, o texto sobre o filme termina em aberto, tão aberto quanto o olhar do agente federal nos últimos segundos do filme, no qual ele pensa: terá valido a pena acabar com aquele mundo irreal? Eu, pelo menos, gostaria muito de ao menos revisitá-lo.

Os melhores filmes de 2013 (e outras listas)

Começo com um aviso: talvez pelo ritmo de trabalhos do mestrado, talvez por outros motivos, minha disposição e meu tempo para o consumo de cultura e arte em 2013 foram poucos, então as listas têm lá um tanto de inércia, de serem feitas para não perder o costume. Mas vá lá, listas são sempre divertidas e desculpem a estreiteza de opiniões do autor.

Começando pela literatura, 2013 foi um ano de quatro livrões. Do quarteto, Liberdade foi o mais magrinho e manteve acesa a chama do meu amor e ódio pelo Jonathan Franzen. Mason e Dixon é um livro de símbolos e debates fartos (ainda que não seja tão divertido quanto Inherent Vice, um anão perto dos demais). O Conde de Monte Cristo é uma aula de como render trama de um jeito que quase não existe mais hoje. As Benevolentes estica os limites da ficção histórica e talvez tenha sido o mais interessante deles – mas nenhum dos quatro fortões despertou em mim aquele espírito de “como eu gostaria de ter escrito esse livro” quanto as meras 113 páginas de Copacabana Dreams. No limite entre as leituras acadêmicas e leituras de lazer, O Sexto Membro Permanente é uma leitura fluida e bem informada sobre a política externa brasileira e as origens da ONU.

A música foi a grande lacuna do ano. Para não dizer que não ouvi nada, os discos “Different Stars” do grupo Trespassers William e “Stories from the city, stories from the sea” da PJ Harvey foram coisas boas. Acho que só ouvi um disco lançado no ano e não gostei – mas dele tirei uma das melhores músicas do ano, Reinação. Junto com ela estão Vidro Fumê e Blurred Lines. E só, eu acho.

E os filmes, finalmente. A lista dos filmes de qualquer ano vistos em 2013 talvez seja até mais sólida que a lista dos lançamentos do ano, já que ela inclui Z , Parceiros da Noite, Políssia , Danton e Depois de Horas. Deixei um bocado de coisa de fora, é verdade.

Uma das vantagens de não ver muitos filmes é não ver muitos filmes ruins. Listo entre os destaques negativos somente Depois de Lúcia, Behind the Candelabra, O Homem de Aço, O Mestre (muito bem resumido por um amigo como ‘três horas de Joaquin Phoenix fazendo careta) e a grande bomba do ano, O Lado Bom da Vida.

Dos filmes de 2013, Vai Que Dá Certo, Blue Jasmine, Detona Ralph e Guerra Mundial Z quase chegaram ao corte dos dez melhores. Se fossemos pensar em cenas isoladas, a fuga em bicicletas de Guerra Mundial Z estaria no topo, junto com a cena de abertura de Além da Escuridão – Star Trek e a cena sobre o quadro em Barbara. E vá lá, a cena em que o mediúnico intérprete de Renato Russo canta “Ainda é cedo” no final de Somos Tão Jovens é um fechamento muito apropriado.  Mas como ainda não vivemos num mundo em que os filmes se resumem a cenas, vamos aos dez melhores de 2013:

10 – Amor

9 – A caça

8 – Rush – no limite da emoção

7 – Anna Karênina

6 – Spring Breakers

5 – No

4 – Tabu

3 – Gravidade

2 – Barbara

1 – O Som ao Redor

E nos vemos em 2015!