Quando o editor perguntou-lhe quem ele tinha em mente para a coluna “Perfil” da próxima semana, Smith respondeu titubeante:
-Charles, não sei ao certo, pode ser que dê errado…mas…eu andei pensando …no Bruce Wayne.
-Quem?
-O filho do casal Wayne, você se lembra do caso, não?
Colin, o editor, se lembrava. Um escândalo na época. Thomas e Martha Wayne, o casal que era o motor do renascimento de Gothan, mortos a tiros no meio da rua. Foram dois meses de trabalho louco na redação. Colin e Smith eram iniciantes e, assim como todos os seus colegas, não conseguiram evitar a frustração quando os detalhes do caso começaram a escassear e tudo que poderia ser descoberto sobre a família Wayne sumiu numa parede de sombras erigida pelos empregados e amigos. Colin respirou fundo antes de responder:
-Bruce. Quase me esqueci desse nome.
-Então, os leitores mais velhos – e quase acrescentou, “mais velhos, como nós” – vão se lembrar. Além do mais eu fiz uma breve pesquisa, ele seguiu os passos do pai e comanda as empresas todas. Um dos homens mais ricos desse país e ninguém tem uma foto recente dele.
Fez-se um breve silêncio na sala.
-Bruce, sim…pode começar a correr atrás dele…que ideia! – Smith já ia se levantar quando Colin acrescentou – Vai ser um sucesso. Eu acho. Se for, você tem prioridade pra fazer outa matéria e coloca-lo na capa. Tem quanto tempo que você não faz uma capa?
-Você ainda tinha cabelo quando isso aconteceu. – e Smith saiu rindo.
…
Smith ligou para seu contato na empresa telefônica.
-E aí, meu velho, tudo bem?
-Qual o pedido de hoje?
-Veja aí se existe algum registro de linha fora do catálogo para Wayne, Bruce.
-Vejamos… – por alguns instantes Smith ouviu o contato assoviar enquanto digitava -…não, ninguém no registro.
-Tente então Pennyworth, Alfred.
Mais alguns momentos de espera.
-Nada também.
-Bem…é, nem todo dia é do caçador. – e desligou, sabendo que o contato não responderia a uma despedida comum. A procura então seria difícil, como o esperado, pensou Smith, e resolveu tomar um café.
A cantina da redação era o lugar onde as pessoas iam fumar e passar o tempo enquanto o boletim meteorológico não chegava ou os assessores de imprensa não liberavam os pronunciamentos oficiais, principalmente fumar. Estava vazia no momento. Smith tomava um café requentado e olhava para a pilha de publicações que sustentava a bandeja das garrafas térmicas. Três anuários da administração municipal, um catálogo da década anterior, um livro-brinde editado pela própria revista. Ele teve a ideia, aparentemente absurda, de procurar na lista telefônica, como faziam as pessoas normais que procuravam outras pessoas normais. Foi até o arquivo da redação com o copo plástico pendurado na boca e pegou a edição mais recente do catálogo de donos de linhas. Lá estava, Wayne, B, duas linhas com o mesmo prefixo de área. Era surreal. O nome que constava na direção de mais de uma dezena de empresas em cargos de nomes como “conselheiro-chefe de negócios” e “diretor-presidente”, o nome cujo destino a cidade acompanhou como se fosse o próprio, era agora um contato ao alcance da mão, e ninguém parecia saber. Smith correu de volta para a sua mesa e discou o primeiro número com a certeza de que falaria com Bernard ou Berenice Wayne. Uma voz do outro lado:
-Residência Wayne, Pennyworth falando.
-É da residência do senhor Bruce Wayne?
-Quem gostaria?
-Francis, Francis Smith, da redação do Semanário de Gotham.
-Um minuto por favor.
Nos primeiros dez segundos, Smith esperou ansioso pelo sinal de ocupado, a conclusão normal daquela ligação. Depois começou a ouvir duas vozes, sem compreender o que elas diziam. Precisamente um minuto depois:
-Bruce Wayne falando.
-Senhor Wayne, tudo bem? Aqui quem fala é Francis Smith, do Semanário de Gotham. Eu gostaria de saber se você não gostaria de conceder uma entrevista para nossa revista.
-Eu não tenho o costume de falar à imprensa. Sobre o que seria?
-O senhor conhece nossa coluna “Perfil”? O entrevistado fala sobre seu filme favorito, livros…
-Eu a leio sempre.
-Pois então, o senhor gostaria de ser o próximo entrevistado?
Silêncio do outro lado da linha. No outro lado da redação um dos responsáveis pela cobertura policial passou correndo por entre as mesas, gritando alguma coisa sobre um certo oficial Norton. Sons no telefone:
-Se nós pudermos deixar de lado as duas últimas perguntas, creio que não será um problema. Qual o horário de sua preferência? – a pergunta quase derrubou Smith da cadeira.
-Bem, normalmente o entrevistado define quando pode nos receber. Amanhã, no final da tarde?
-Às dezoito horas?
-Perfeito.
-Estarei esperando.
E o fone ficou mudo. Do outro lado da redação um grupo acompanhava a narração do repórter recém-chegado sobre um caso escabroso. O Gordon, não Norton, comissário Gordon, havia saído do coma na frente dele e denunciado uma rede de corrupção na polícia local. Segundo a voz que saía do meio do grupo, porque agora quase todos do andar haviam se aglomerado ao redor da mesa, não havia nome que não saísse sujo da história. Naquele momento a história parecia irrelevante para Smith.
…
O prédio de Bruce ficava em um bairro central de Gotham. Smith chegou cinco minutos antes da hora marcada. Estava sozinho, ele próprio faria as fotos. O porteiro interfonou para o apartamento e permitiu que ele subisse. A cobertura Wayne ocupava os três últimos andares do prédio, cujo lobby pequeno não faria ninguém imaginar que cada apartamento era maior do que a redação inteira do Semanário. Smith havia cunhado esse termo, cobertura Wayne, lembrando-se da época do duplo assassinato, quando todos os repórteres se encontravam em frente ao antigo casarão, apelidado por eles de mansão Wayne. O mostrador indicou que o elevador havia chegado ao trigésimo quinto andar. A porta se abriu e Smith percebeu que o senhor que o recebia tinha um rosto familiar.
-Senhor Smith, o senhor Wayne se encontra no escritório. Tenha a gentileza de me seguir.
- Claro… – enquanto andava, Smith percebeu que aquele velho à sua frente era o senhor Pennyworth, empregado da família e grande responsável por fazer minguar qualquer novidade sobre o assassinato de seus patrões no passado. Houve na época a suspeita de que ele pudesse ter sido o mandante do crime, mas algumas provas levaram o caso para outro lado, e no fim para lado nenhum. Ele era agora uma versão amarrotada e manchada do antigo Alfred, com a pele em frangalhos, mas a mesma postura de soldado e o bigode aparado milimetricamente.
O apartamento era decorado de forma sóbria. Na enorme sala, alguns sofás escuros e um quadro de Turner na parede. Nenhuma foto ou objeto pessoal. O escritório ficava no segundo andar, e aparentemente não havia elevador interno. Bruce estava de costas para a porta, sentado em uma cadeira de trabalho, lendo o que deveria ser um relatório.
-Senhor Wayne, o repórter está aqui.
Bruce se levantou. Ele era um homem forte e alto, cabelos escuros cortados muito curtos e um rosto quadrado. Estava usando camisa polo azul escura, calças jeans e sapatos.
-Muito prazer, senhor Smith.
-O prazer é meu, senhor Wayne. – e hesitou, pensando que na verdade ele já havia conhecido Bruce há muito tempo. Uma vez, nos dias de plantão em frente à mansão dos pais dele, o ainda menino havia aparecido no jardim, correndo como qualquer criança. Os empregados da mansão haviam sido tão rápidos em leva-lo de volta para dentro da casa que ninguém teve tempo de tirar uma foto, que sairia na capa de todos os impressos. Agora Smith podia perceber que aquele homem à sua frente era nada além do que uma versão esticada do menino.
-O senhor tem um belo apartamento.
-Obrigado. O senhor aceita algo?
-Uma água, se não for muito incômodo.
-De forma alguma. Uma água para o senhor Smith e um café para mim.
O empregado saiu do cômodo. Bruce continuou:
-Então, pensei em fazermos a entrevista aqui mesmo. É onde eu me sinto mais à vontade.
-Perfeitamente. – Bruce se sentou novamente na cadeira, Smith se sentou em uma poltrona próxima. Um abajur sugeria que era ali que o dono da casa se sentava pra ler. –Antes de continuar, eu gostaria de agradecer por ter aceitado a proposta senh…você prefere ser chamado de Bruce ou de senhor Wayne?
-Bruce. – e o entrevistado sorriu.
-Muito bem, Bruce, obrigado por ter aceitado o convite. Eu realmente não esperava que isso fosse acontecer. – e sorriu de volta – Pois bem então, você disse que conhece a coluna, então já vou para a primeira pergunta. Filme favorito?
-Doze Homens e Uma Sentença – ele respondeu de imediato, como se tivesse ensaiado antes. Smith notou que ele esfregava as mãos, que estavam muito suadas. Alfred voltou com um copo de água geladíssima e um café.
-Livro?
-Não é um livro, mas acho que vale como resposta: Hamlet.
-Vale, claro que vale. Um músico?
-Chet Baker.
-Uma viagem?
-Rússia. De uma ponta a outra.
-Prato favorito?
-De louça – e Bruce riu de forma desconfortável, buscando aprovação para a própria piada. Smith não conseguiu fazer nada além de sorrir de forma desajeitada -, é brincadeira. Sushi.
-Sushi, anotado. Um ídolo? – Bruce ficou alguns momentos em silêncio, e Smith pensou que ele estava escolhendo entre duas respostas previamente selecionadas.
-…posso responder esta no final?
-Claro. – a próxima pergunta seria “um sonho?”, mas já era das que Bruce tinha pedido para não responder. A substituta era genérica. – o que levaria para uma ilha deserta? –Bruce riu antes de responder.
-Deixe-me ver…filtro solar, eu acho.
-É uma boa escolha. – A última pergunta seria “Amar é…?”. Veio a substituta:
-Uma frase?
Bruce pareceu perturbado pela pergunta. Olhou para cima e para os lados por mais de um minuto antes de começar a resposta:
-Essa é difícil…assim, não difícil, mas é difícil de escolher uma só. Posso pensar um pouco? Pensar um pouco mais? – e o rosto quadrado de Bruce se torceu em uma tentativa de sorriso.
-Claro. Você é quem manda!
Bruce continuou agitado na cadeira. Suas mãos suavam muito. Ele moveu o tronco para se levantar, mas parou. Terminou a resposta:
-Uma frase: bem aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados de filhos de Deus. É, essa. Não tenho certeza se é essa a redação…
-Sim, é isso mesmo. Direto do Sermão da Montanha.
-O senhor também lê a Bíblia?
-Já li muito, eu era coroinha. – e Bruce sorriu o sorriso do menino que brincava no jardim em tempos imemoriais. –E as perguntas acabaram – agora era Smith quem sorria. – Se você quiser acrescentar alguma coisa, mudar alguma resposta, responder aquela que você não respondeu, fique à vontade.
-Não, assim está bem.
-Agora eu preciso fazer as fotos. Onde você prefere?
-Pode ser aqui mesmo. Enquanto isso eu escolho um ídolo.
-Bem, a luz aqui não é das melhores…
-Melhor assim. – murmurou Bruce.
-Como?
-Perdão. É que eu não gosto muito de aparecer, não ia me importar muito se a foto não ficasse boa. Mas você precisa de uma boa foto, eu estava só pensando alto.
-Se você quiser, eu posso colocar você em um canto da foto. Quem sabe ao lado daquele belo quadro que você tem na sala?
-Boa ideia.
Os dois desceram. Havia anoitecido e Smith pôde notar que a iluminação do apartamento era quase inexistente. Mal foi possível ver de onde vinha a voz de Alfred, que perguntava se eles desejavam mais alguma coisa, talvez algo mais forte, para a noite. Smith aceitou um uísque, na esperança de beber algo cuja dose custaria a metade de seu salário, e perguntou para Bruce. No caminho para a sala, Smith disse:
-Se não for perguntar demais – ele se desculpou mentalmente pensando que como jornalista ele sempre estava perdoado por perguntar demais -, mas por que você não mora na mansão da família? – e na mesma hora ele se arrependeu de ter usado o termo “família”. Bruce demorou alguns instantes para responder:
-A casa era boa, mas estava condenada. Descobri há algum tempo que ela foi construída sobre uma caverna, existe um risco constante de desabamento.
-Sim… – chegaram à sala. Estavam quase no breu. – Isso é o mais claro que essa sala pode ficar?
-Não. Só um minuto. – Bruce foi até um canto e mexeu no dimer. A sala ficou bastante clara, o quadro destacado na parede branca. – Assim está bom?
-Está ótimo! Agora fique ao lado do quadro. Assim, perfeito. – Smith tirou algumas fotos, Bruce alternou a expressão sem que ele pedisse, entre um sorriso muito aberto e a cara quase fechada. Alguns minutos depois, após conferir as fotos no visor da câmera, Smith disse:
-Bruce, creio que acabamos. As fotos ficaram boas. Espero que você goste do resultado.
-Vai ficar ótimo, eu tenho certeza. – e começaram a andar para a porta da saída. Bruce parou. Smith parou em seguida. Bruce falou muito baixo, quase um sussurro:
-Eu ainda não escolhi um ídolo…o senhor não quer ficar para conversar?
Smith demorou para entender o que ele disse. A proposta era inacreditável. A capa que Colin havia dito poderia estar sendo impressa ali mesmo, naquele momento. Mas, pensou ele, aquele tom não era bom. A expressão de Bruce, que agora olhava para baixo e respirava muito profundamente, indicava que aquela não seria uma conversa normal. Smith decidiu que iria ouvir, ouvir tudo muito atentamente, e só depois pensar se aquilo poderia ser registrado, por mais que uma capa com a chamada “Wayne, 30 anos depois” atiçasse seu ego. Smith respondeu:
-Claro, claro…eu posso pegar mais um uísque?
-Sim. Alfred?
O mordomo apareceu da penumbra da cozinha
-Mais um uísque para o senhor Smith.
-Sim, senhor.
Bruce se sentou no sofá, abaixo da pintura. Smith se sentou no sofá do lado oposto. Alfred trouxe o uísque. Por mais de um minuto os ruídos na sala eram apenas a respiração entrecortada de Bruce e os motores dos carros na rua muito abaixo. Bruce falou:
-Então…eu não escolhi meu ídolo porque é tudo muito difícil. Certamente meus subordinados vão ler a entrevista, meus acionistas também, mas eu não posso mentir. As grandes figuras da humanidade são aquelas cujas efígies possuem uma poça de sangue aos pés, sangue derramado na construção de um mundo ideal. Todas essas pessoas falharam, foram engolidas pela impiedade ou pelos processos elas que desencadearam e foram corrompidos depois. Mas se eu disser isso, o que acontece? No começo eu vou ser olhado de lado, depois alguém, algum insatisfeito, vai me chamar de louco e a partir daí… – e Bruce ficou em silêncio, olhando fixamente para Smith, que disse:
-Mas…- e qualquer resposta pareceu inapropriada.
-Você pode dizer que é só uma entrevista, e eu entenderia. Mas pra mim isso seria jogar uma pedra contra a gaiola de vidro na qual eu estou, na qual eu vivi toda a minha vida. E por estar preso desde sempre a vida fora dela me parece impossível. Olhe por exemplo o Alfred. – Smith teve certeza que o mordomo estava escutando – Não fosse por ele, eu teria sido um bilionário que morreu de subnutrição infantil. E isso por quê? Porque o mundo é perverso, e o que eu poderia fazer para mudar isso seria também a minha danação.
Smith sentiu que Bruce há muito precisava que alguém ouvisse aquele monólogo sem sentido, alguém que não fosse pago por ele, algo muito difícil de achar naquela cidade. Bruce chorava com o rosto apoiado entre as mãos. Os soluços da voz grave dele davam um sentimento incômodo. Bruce falou:
-Eu queria poder fazer alguma coisa, porque todos os dias eu acordo com uma dor enorme no peito, como se eu tivesse tomado aqueles tiros. Como se as balas estivessem aqui dentro, e não houvesse…e não há terapia, distração, viagem, meditação que dê jeito.
Mais alguns minutos de silêncio. Bruce disse:
-Me desculpe estar falando isso tudo pra você, mas é que quando você apareceu no escritório eu me lembrei de você. Uma vez, um pouco depois do que aconteceu, eu tentei fugir. Eu estava, ainda estou, com muita raiva, e tentei fugir. Sabe-se lá pra onde, não é? E eu me lembro de você, de cada um dos homens que estava do lado de fora da minha casa. Vocês estavam fora das grades, conversavam. Mas como não poderia deixar de ser nessa minha vida desgraçada, me fizeram voltar para debaixo do rochedo chamado Wayne, de onde eu não consegui sair até hoje.
Smith saiu do apartamento já de madrugada, com material suficiente para uma biografia em dois tomos de Bruce Wayne, e sem a menor vontade de ouvir falar daquele nome outra vez.
…
A redação andava agitada após o caso Gordon. Smith estava escolhendo qual foto da Paula Gretzky, cantora de jazz, iria para a coluna “Perfil” daquela semana, mais de um mês após a entrevista com Bruce. Ele não teve coragem de publicar o que Bruce havia dito em sua longa confissão. Nem contou para Colin, que também estava na frente da Mansão Wayne há muitos anos, sobre o que ouviu. Ele abriu o e-mail para enviar a foto escolhida para os diagramadores, quando notou que havia recebido um novo e-mail. Título “ídolo”. Abriu.
Caro Smith,
Robespierre.
Já é hora de mudar alguma coisa.
Bruce.


