-Quer dizer então que você é o tradutor, certo?
Mais certo, impossível. O Oscar, que tinha me convidado pra festa, sempre me apresentava como “Julio, o tradutor”. Eu consegui imaginar o Oscar falando pra moça “Vou chamar um amigo meu, o Julio. Ele é tradutor!” e o olho ruim dele batendo pro lado, o que acontecia quando ele dava risadinhas, que sempre sucediam as frases mais animadas dele. Respondi:
-Sim, eu mesmo…Julio, e você? – O ruído na sala me forçava a falar colado ao ouvido dela.
-Berenice. Eu sou a dona da casa – e sorriu – está gostando?
Eu estava. Era uma festa, quem não gosta de festas? Dois casais sorridentes conversando em pé na cozinha, muita gente com caras felizes na sala, Earth Wind and Fire no som. Melhor ainda estava a Berenice.
-Claro. Seus amigos são muito divertidos. – Era uma meia verdade. Os amigos dela que eu achava divertidos eram o Oscar e a Milene, que eram também meus amigos. Com as outras pessoas eu não tinha conversado ainda.
-Bem, eu não sou exatamente responsável por isso, mas obrigado! – e sorriu novamente. Ela tinha um cheiro bom, mas não era perfume, nem xampu. Parecia sair dela própria, um cheiro de geladeira nova. Pensei em roçar de leve meu nariz na nuca dela na minha próxima frase, checar se ela estava fria. Caso sim, ela poderia ter estado dentro de uma geladeira. Desisti. Melhor que o cheiro dela era o desenho que ela deixava nas coisas. Uma silhueta para ser eternizada e colocada num museu de arte moderna. Antes de conversarmos, a vi de longe contra uma porta. O espaço ao redor dela, Berenice, transformava-a, a porta, no zênite da carpintaria. Encostar meu nariz nela só serviria para estragar tudo. Uma formiga esmigalhada pela prensa e colada ao papel no livro da melhor tipografia. Ela subitamente disse:
-Você sabe que seu trabalho será sempre um fracasso, não é?
Se eu não concordasse inteiramente com isso, teria tomado a afirmativa como um soco nos testículos. O trabalho do tradutor, mais do que converter o texto de uma língua pra outra, é aceitar a ideia de que ele está sempre fazendo um texto novo e inferior ao que ele se baseia. Um amigo meu de profissão superou um câncer só para se matar alguns meses depois ao se dar conta de que ele era na verdade um piorador de livros.
Ela ficou me olhando. Demorei para decidir se ela estava me desafiando ou apenas fazendo uma observação sensata. Qualquer fosse a opção, ela o tinha feito de modo inteligente. Optei pela observação. Falei:
-Sei. É por isso que eu bebo.
Imbecil. Só alguém muito imbecil como eu para responder com esse comentário digno de comédia na televisão. Ela era um desafio sofisticado e plasticamente perfeito e eu uma versão ruim do Tom Cavalcante. Surpreendentemente, ela riu. Os dentes dela deviam ser falsos. Nenhuma arcada natural poderia ser tão harmoniosa.
-E quem você já traduziu?
Falei alguns nomes, nenhum muito famoso, todos da América do Sul. E um monegasco que escrevia poesias em espanhol. Surpreendentemente, ela conhecia esse último. Repetiu o nome e segurou meu cotovelo. A mão dela estava muito fria. No mesmo instante, o Oscar fazia sua péssima imitação de macaco pela sala, mas as pessoas pareciam gostar.



Todo e qualquer texto escrito por você vira instantaneamente um filme na minha cabeça. É impressionante. E num sentido muito positivo.
Sobre Berenice: fria como se encontrava, ela havia estado, pois, em uma geladeira?
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