Enquanto isso, na mansão Wayne…

Quando o editor perguntou-lhe quem ele tinha em mente para a coluna “Perfil” da próxima semana, Smith respondeu titubeante:

-Charles, não sei ao certo, pode ser que dê errado…mas…eu andei pensando …no Bruce Wayne.

-Quem?

-O filho do casal Wayne, você se lembra do caso, não?

Colin, o editor, se lembrava. Um escândalo na época. Thomas e Martha Wayne, o casal que era o motor do renascimento de Gothan, mortos a tiros no meio da rua. Foram dois meses de trabalho louco na redação. Colin e Smith eram iniciantes e, assim como todos os seus colegas, não conseguiram evitar a frustração quando os detalhes do caso começaram a escassear e tudo que poderia ser descoberto sobre a família Wayne sumiu numa parede de sombras erigida pelos empregados e amigos. Colin respirou fundo antes de responder:

-Bruce. Quase me esqueci desse nome.

-Então, os leitores mais velhos – e quase acrescentou, “mais velhos, como nós” – vão se lembrar. Além do mais eu fiz uma breve pesquisa, ele seguiu os passos do pai e comanda as empresas todas. Um dos homens mais ricos desse país e ninguém tem uma foto recente dele.

Fez-se um breve silêncio na sala.

-Bruce, sim…pode começar a correr atrás dele…que ideia! – Smith já ia se levantar quando Colin acrescentou – Vai ser um sucesso. Eu acho. Se for, você tem prioridade pra fazer outa matéria e coloca-lo na capa. Tem quanto tempo que você não faz uma capa?

-Você ainda tinha cabelo quando isso aconteceu. – e Smith saiu rindo.

 

 

Smith ligou para seu contato na empresa telefônica.

-E aí, meu velho, tudo bem?

-Qual o pedido de hoje?

-Veja aí se existe algum registro de linha fora do catálogo para Wayne, Bruce.

-Vejamos… – por alguns instantes Smith ouviu o contato assoviar enquanto digitava -…não, ninguém no registro.

-Tente então Pennyworth, Alfred.

Mais alguns momentos de espera.

-Nada também.

-Bem…é, nem todo dia é do caçador.  – e desligou, sabendo que o contato não responderia a uma despedida comum. A procura então seria difícil, como o esperado, pensou Smith, e resolveu tomar um café.

A cantina da redação era o lugar onde as pessoas iam fumar e passar o tempo enquanto o boletim meteorológico não chegava ou os assessores de imprensa não liberavam os pronunciamentos oficiais, principalmente fumar. Estava vazia no momento. Smith tomava um café requentado e olhava para a pilha de publicações que sustentava a bandeja das garrafas térmicas. Três anuários da administração municipal, um catálogo da década anterior, um livro-brinde editado pela própria revista. Ele teve a ideia, aparentemente absurda, de procurar na lista telefônica, como faziam as pessoas normais que procuravam outras pessoas normais. Foi até o arquivo da redação com o copo plástico pendurado na boca e pegou a edição mais recente do catálogo de donos de linhas. Lá estava, Wayne, B, duas linhas com o mesmo prefixo de área. Era surreal. O nome que constava na direção de mais de uma dezena de empresas em cargos de nomes como “conselheiro-chefe de negócios” e “diretor-presidente”, o nome cujo destino a cidade acompanhou como se fosse o próprio, era agora um contato ao alcance da mão, e ninguém parecia saber. Smith correu de volta para a sua mesa e discou o primeiro número com a certeza de que falaria com Bernard ou Berenice Wayne. Uma voz do outro lado:

-Residência Wayne, Pennyworth falando.

-É da residência do senhor Bruce Wayne?

-Quem gostaria?

-Francis, Francis Smith, da redação do Semanário de Gotham.

-Um minuto por favor.

Nos primeiros dez segundos, Smith esperou ansioso pelo sinal de ocupado, a conclusão normal daquela ligação. Depois começou a ouvir duas vozes, sem compreender o que elas diziam. Precisamente um minuto depois:

-Bruce Wayne falando.

-Senhor Wayne, tudo bem? Aqui quem fala é Francis Smith, do Semanário de Gotham. Eu gostaria de saber se você não gostaria de conceder uma entrevista para nossa revista.

-Eu não tenho o costume de falar à imprensa. Sobre o que seria?

-O senhor conhece nossa coluna “Perfil”? O entrevistado fala sobre seu filme favorito, livros…

-Eu a leio sempre.

-Pois então, o senhor gostaria de ser o próximo entrevistado?

Silêncio do outro lado da linha. No outro lado da redação um dos responsáveis pela cobertura policial passou correndo por entre as mesas, gritando alguma coisa sobre um certo oficial Norton. Sons no telefone:

-Se nós pudermos deixar de lado as duas últimas perguntas, creio que não será um problema. Qual o horário de sua preferência? – a pergunta quase derrubou Smith da cadeira.

-Bem, normalmente o entrevistado define quando pode nos receber. Amanhã, no final da tarde?

-Às dezoito horas?

-Perfeito.

-Estarei esperando.

E o fone ficou mudo. Do outro lado da redação um grupo acompanhava a narração do repórter recém-chegado sobre um caso escabroso. O Gordon, não Norton, comissário Gordon, havia saído do coma na frente dele e denunciado uma rede de corrupção na polícia local. Segundo a voz que saía do meio do grupo, porque agora quase todos do andar haviam se aglomerado ao redor da mesa, não havia nome que não saísse sujo da história. Naquele momento a história parecia irrelevante para Smith.

 

O prédio de Bruce ficava em um bairro central de Gotham. Smith chegou cinco minutos antes da hora marcada. Estava sozinho, ele próprio faria as fotos. O porteiro interfonou para o apartamento e permitiu que ele subisse. A cobertura Wayne ocupava os três últimos andares do prédio, cujo lobby pequeno não faria ninguém imaginar que cada apartamento era maior do que a redação inteira do Semanário. Smith havia cunhado esse termo, cobertura Wayne, lembrando-se da época do duplo assassinato, quando todos os repórteres se encontravam em frente ao antigo casarão, apelidado por eles de mansão Wayne. O mostrador indicou que o elevador havia chegado ao trigésimo quinto andar. A porta se abriu e Smith percebeu que o senhor que o recebia tinha um rosto familiar.

-Senhor Smith, o senhor Wayne se encontra no escritório. Tenha a gentileza de me seguir.

- Claro… – enquanto andava, Smith percebeu que aquele velho à sua frente era o senhor Pennyworth, empregado da família e grande responsável por fazer minguar qualquer novidade sobre o assassinato de seus patrões no passado. Houve na época a suspeita de que ele pudesse ter sido o mandante do crime, mas algumas provas levaram o caso para outro lado, e no fim para lado nenhum. Ele era agora uma versão amarrotada e manchada do antigo Alfred, com a pele em frangalhos, mas a mesma postura de soldado e o bigode aparado milimetricamente.

O apartamento era decorado de forma sóbria. Na enorme sala, alguns sofás escuros e um quadro de Turner na parede. Nenhuma foto ou objeto pessoal. O escritório ficava no segundo andar, e aparentemente não havia elevador interno. Bruce estava de costas para a porta, sentado em uma cadeira de trabalho, lendo o que deveria ser um relatório.

-Senhor Wayne, o repórter está aqui.

Bruce se levantou. Ele era um homem forte e alto, cabelos escuros cortados muito curtos e um rosto quadrado. Estava usando camisa polo azul escura, calças jeans e sapatos.

-Muito prazer, senhor Smith.

-O prazer é meu, senhor Wayne. – e hesitou, pensando que na verdade ele já havia conhecido Bruce há muito tempo. Uma vez, nos dias de plantão em frente à mansão dos pais dele, o ainda menino havia aparecido no jardim, correndo como qualquer criança. Os empregados da mansão haviam sido tão rápidos em leva-lo de volta para dentro da casa que ninguém teve tempo de tirar uma foto, que sairia na capa de todos os impressos. Agora Smith podia perceber que aquele homem à sua frente era nada além do que uma versão esticada do menino.

-O senhor tem um belo apartamento.

-Obrigado. O senhor aceita algo?

-Uma água, se não for muito incômodo.

-De forma alguma. Uma água para o senhor Smith e um café para mim.

O empregado saiu do cômodo. Bruce continuou:
-Então, pensei em fazermos a entrevista aqui mesmo. É onde eu me sinto mais à vontade.

-Perfeitamente. – Bruce se sentou novamente na cadeira, Smith se sentou em uma poltrona próxima. Um abajur sugeria que era ali que o dono da casa se sentava pra ler. –Antes de continuar, eu gostaria de agradecer por ter aceitado a proposta senh…você prefere ser chamado de Bruce ou de senhor Wayne?

-Bruce. – e o entrevistado sorriu.

-Muito bem, Bruce, obrigado por ter aceitado o convite. Eu realmente não esperava que isso fosse acontecer. – e sorriu de volta – Pois bem então, você disse que conhece a coluna, então já vou para a primeira pergunta. Filme favorito?

-Doze Homens e Uma Sentença – ele respondeu de imediato, como se tivesse ensaiado antes. Smith notou que ele esfregava as mãos, que estavam muito suadas. Alfred voltou com um copo de água geladíssima e um café.

-Livro?

-Não é um livro, mas acho que vale como resposta: Hamlet.

-Vale, claro que vale. Um músico?

-Chet Baker.

-Uma viagem?

-Rússia. De uma ponta a outra.

-Prato favorito?

-De louça – e Bruce riu de forma desconfortável, buscando aprovação para a própria piada. Smith não conseguiu fazer nada além de sorrir de forma desajeitada -, é brincadeira. Sushi.

-Sushi, anotado. Um ídolo? – Bruce ficou alguns momentos em silêncio, e Smith pensou que ele estava escolhendo entre duas respostas previamente selecionadas.

-…posso responder esta no final?

-Claro. – a próxima pergunta seria “um sonho?”, mas já era das que Bruce tinha pedido para não responder. A substituta era genérica. – o que levaria para uma ilha deserta? –Bruce riu antes de responder.

-Deixe-me ver…filtro solar, eu acho.

-É uma boa escolha. – A última pergunta seria “Amar é…?”. Veio a substituta:

-Uma frase?

Bruce pareceu perturbado pela pergunta. Olhou para cima e para os lados por mais de um minuto antes de começar a resposta:

-Essa é difícil…assim, não difícil, mas é difícil de escolher uma só. Posso pensar um pouco? Pensar um pouco mais? – e o rosto quadrado de Bruce se torceu em uma tentativa de sorriso.

-Claro. Você é quem manda!

Bruce continuou agitado na cadeira. Suas mãos suavam muito. Ele moveu o tronco para se levantar, mas parou. Terminou a resposta:

-Uma frase: bem aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados de filhos de Deus. É, essa. Não tenho certeza se é essa a redação…

-Sim, é isso mesmo. Direto do Sermão da Montanha.

-O senhor também lê a Bíblia?

-Já li muito, eu era coroinha. – e Bruce sorriu o sorriso do menino que brincava no jardim em tempos imemoriais. –E as perguntas acabaram – agora era Smith quem sorria. – Se você quiser acrescentar alguma coisa, mudar alguma resposta, responder aquela que você não respondeu, fique à vontade.

-Não, assim está bem.

-Agora eu preciso fazer as fotos. Onde você prefere?

-Pode ser aqui mesmo. Enquanto isso eu escolho um ídolo.

-Bem, a luz aqui não é das melhores…

-Melhor assim. – murmurou Bruce.

-Como?

-Perdão. É que eu não gosto muito de aparecer, não ia me importar muito se a foto não ficasse boa. Mas você precisa de uma boa foto, eu estava só pensando alto.

-Se você quiser, eu posso colocar você em um canto da foto. Quem sabe ao lado daquele belo quadro que você tem na sala?

-Boa ideia.

Os dois desceram. Havia anoitecido e Smith pôde notar que a iluminação do apartamento era quase inexistente. Mal foi possível ver de onde vinha a voz de Alfred, que perguntava se eles desejavam mais alguma coisa, talvez algo mais forte, para a noite. Smith aceitou um uísque, na esperança de beber algo cuja dose custaria a metade de seu salário, e perguntou para Bruce. No caminho para a sala, Smith disse:

-Se não for perguntar demais – ele se desculpou mentalmente pensando que como jornalista ele sempre estava perdoado por perguntar demais -, mas por que você não mora na mansão da família? – e na mesma hora ele se arrependeu de ter usado o termo “família”. Bruce demorou alguns instantes para responder:

-A casa era boa, mas estava condenada. Descobri há algum tempo que ela foi construída sobre uma caverna, existe um risco constante de desabamento.

-Sim… – chegaram à sala. Estavam quase no breu. – Isso é o mais claro que essa sala pode ficar?

-Não. Só um minuto. – Bruce foi até um canto e mexeu no dimer. A sala ficou bastante clara, o quadro destacado na parede branca. – Assim está bom?

-Está ótimo! Agora fique ao lado do quadro. Assim, perfeito. – Smith tirou algumas fotos, Bruce alternou a expressão sem que ele pedisse, entre um sorriso muito aberto e a cara quase fechada. Alguns minutos depois, após conferir as fotos no visor da câmera, Smith disse:

-Bruce, creio que acabamos. As fotos ficaram boas. Espero que você goste do resultado.

-Vai ficar ótimo, eu tenho certeza. – e começaram a andar para a porta da saída. Bruce parou. Smith parou em seguida. Bruce falou muito baixo, quase um sussurro:

-Eu ainda não escolhi um ídolo…o senhor não quer ficar para conversar?

Smith demorou para entender o que ele disse. A proposta era inacreditável. A capa que Colin havia dito poderia estar sendo impressa ali mesmo, naquele momento. Mas, pensou ele, aquele tom não era bom. A expressão de Bruce, que agora olhava para baixo e respirava muito profundamente, indicava que aquela não seria uma conversa normal. Smith decidiu que iria ouvir, ouvir tudo muito atentamente, e só depois pensar se aquilo poderia ser registrado, por mais que uma capa com a chamada “Wayne, 30 anos depois” atiçasse seu ego. Smith respondeu:

-Claro, claro…eu posso pegar mais um uísque?

-Sim. Alfred?

O mordomo apareceu da penumbra da cozinha

-Mais um uísque para o senhor Smith.

-Sim, senhor.

Bruce se sentou no sofá, abaixo da pintura. Smith se sentou no sofá do lado oposto. Alfred trouxe o uísque. Por mais de um minuto os ruídos na sala eram apenas a respiração entrecortada de Bruce e os motores dos carros na rua muito abaixo. Bruce falou:

-Então…eu não escolhi meu ídolo porque é tudo muito difícil. Certamente meus subordinados vão ler a entrevista, meus acionistas também, mas eu não posso mentir. As grandes figuras da humanidade são aquelas cujas efígies possuem uma poça de sangue aos pés, sangue derramado na construção de um mundo ideal. Todas essas pessoas falharam, foram engolidas pela impiedade ou pelos processos elas que desencadearam e foram corrompidos depois. Mas se eu disser isso, o que acontece? No começo eu vou ser olhado de lado, depois alguém, algum insatisfeito, vai me chamar de louco e a partir daí… – e Bruce ficou em silêncio, olhando fixamente para Smith, que disse:

-Mas…- e qualquer resposta pareceu inapropriada.

-Você pode dizer que é só uma entrevista, e eu entenderia. Mas pra mim isso seria jogar uma pedra contra a gaiola de vidro na qual eu estou, na qual eu vivi toda a minha vida. E por estar preso desde sempre a vida fora dela me parece impossível. Olhe por exemplo o Alfred. – Smith teve certeza que o mordomo estava escutando – Não fosse por ele, eu teria sido um bilionário que morreu de subnutrição infantil. E isso por quê? Porque o mundo é perverso, e o que eu poderia fazer para mudar isso seria também a minha danação.

Smith sentiu que Bruce há muito precisava que alguém ouvisse aquele monólogo sem sentido, alguém que não fosse pago por ele, algo muito difícil de achar naquela cidade. Bruce chorava com o rosto apoiado entre as mãos. Os soluços da voz grave dele davam um sentimento incômodo. Bruce falou:

-Eu queria poder fazer alguma coisa, porque todos os dias eu acordo com uma dor enorme no peito, como se eu tivesse tomado aqueles tiros. Como se as balas estivessem aqui dentro, e não houvesse…e não há terapia, distração, viagem, meditação que dê jeito.

Mais alguns minutos de silêncio. Bruce disse:

-Me desculpe estar falando isso tudo pra você, mas é que quando você apareceu no escritório eu me lembrei de você. Uma vez, um pouco depois do que aconteceu, eu tentei fugir. Eu estava, ainda estou, com muita raiva, e tentei fugir. Sabe-se lá pra onde, não é? E eu me lembro de você, de cada um dos homens que estava do lado de fora da minha casa. Vocês estavam fora das grades, conversavam. Mas como não poderia deixar de ser nessa minha vida desgraçada, me fizeram voltar para debaixo do rochedo chamado Wayne, de onde eu não consegui sair até hoje.

Smith saiu do apartamento já de madrugada, com material suficiente para uma biografia em dois tomos de Bruce Wayne, e sem a menor vontade de ouvir falar daquele nome outra vez.

 

 

A redação andava agitada após o caso Gordon. Smith estava escolhendo qual foto da Paula Gretzky, cantora de jazz, iria para a coluna “Perfil” daquela semana, mais de um mês após a entrevista com Bruce. Ele não teve coragem de publicar o que Bruce havia dito em sua longa confissão. Nem contou para Colin, que também estava na frente da Mansão Wayne há muitos anos, sobre o que ouviu. Ele abriu o e-mail para enviar a foto escolhida para os diagramadores, quando notou que havia recebido um novo e-mail. Título “ídolo”. Abriu.

 

Caro Smith,

 

 Robespierre.

 

Já é hora de mudar alguma coisa.

 

Bruce.

 

 

 

Os melhores filmes de 2011 (e outras listas)

2011 começou bem, arriscou se tornar annus mirabilis e caiu pra annus horribilis logo em seguida, mas três últimos meses fizeram tudo acabar bem. Vamos às listas.

Começando pelos livros, uma lista muito mais farta que a do ano passado , uma vez que eu passei muito mais tempo lendo do que vendo filmes. Antes de mais nada, peço desculpas pelos links que misturam a Wikipedia e lojas. Se os filmes merecem links, os livros também merecem, e na falta de um IMDB dos livros, foi o que deu pra fazer, Em ordem alfabética do sobrenome do autor, recomendo todos os seguintes:  “O Invasor”  , de Marçal Aquino; “Como a geração sexo, drogas e rock ‘n ‘roll salvou Hollywood” , de Peter Biskind; “Ficciones”  , de Jorge Luis Borges; “Mongólia” , de Bernardo Carvalho; “A Visit from the Goon Squad” , de Jennifer Egan; “Navegantes, Bandeirantes e Diplomatas” , de Synésio Sampaio Góes Filho; “Pornopopeia” , de Reinaldo Moraes; “A Palavra Nunca” , de Eric Nepomuceno; “Sagarana” , de Guimaraes Rosa; “Memorial do Convento”, de José Saramago e “Como Funciona a Ficção”, de James Woods.

Para não dizer que eu não falei de música, foi sensacional ter visto os shows dos dois Beatles que sobraram. E “Nó na Orelha“, do Criolo, é um senhor disco.

Piores filmes do ano: “Os Especialistas”, “Os Três Mosqueteiros 3-D”, “Carros 2”, “Cópia Fiel”  e o ilustre campeão só que ao contrário, “Filme Socialismo

Como vi mais filmes em casa, farei também uma breve listagem dos recomendadíssimos que não são de 2011: “Fargo”, “A Última Sessão de Cinema” , “Os Incompreendidos” , “A Última Noite de Bóris Grushenko” , “A Morte Pede Carona”, “Quanto Mais Quente Melhor” e “O Salário do Medo”. A lista está fora de ordem, mas se estivesse, certamente o primeiro lugar seria de “A Noite Americana

Dos filmes de 2011, os seguintes não conseguiram entrar na contagem final, mas ganham uma menção honrosa: Um Homem Misterioso (que estreou em BH na última semana de 2010, mas foi visto esse ano. É justo que entre aqui), Rango , A Árvore da Vida , O Garoto da Bicicleta , Não Me Abandone Jamais e Contra o Tempo .

Finalmente, a lista

10 – Melancolia

9 – A Pele que Habito

8 – Super 8

7 – O Palhaço

6 – Tudo pelo Poder

5 – Meia-Noite em Paris

4 – Contágio

3 – X-Men: Primeira Classe

2 – Toda Forma de Amor

1 – Homens e Deuses

E um ótimo 2012 a todos!

A senha

Nove da manhã. Ele estava parado na porta do café. Como se o último dia do ano não fosse suficiente para que todos ficassem em casa, havia ainda a garoa, o frio e o medo. Daquela calçada onde ele se encontrava até os aviões (e trens e bunkers e submarinos) onde os grandes homens se escondem, um medo sem fim. Qual era mesmo a senha?

Nove e cinco. Ele entrou e se sentou num banco em frente ao balcão. Um homem é prisioneiro de suas virtudes quando nada no mar gelado? Um homem é o pioneiro das virtudes quando entra num lago gelado? Senha longa dos infernos. Saudades de quando a senha era algo como azul de metileno, macaco louco, qualquer coisa curta que não precisasse de nexo. Saudades de quando errar a senha custava no máximo mais dois meses de reclusão pra alguém em algum porão gelado. O contato estaria de chapéu de feltro e sobretudo, lendo o suplemento literário. Todos os quatro outros homens no café se encaixavam nessa descrição.

Nove e sete. Ele pediu um café enquanto pensava. A cozinheira recolocou um bule no fogo. Um dos homens se levantou e saiu. Menos um. O café ficou pronto.

Nove e dez. Um homem é o primeiro se sua virtude é entrar no mar gelado. Era isso. Mas qual seria o contato? Cada segundo que passava era um segundo a menos para que ele recebesse os envelopes com as instruções e passasse adiante o envelope que ele guardava na pasta, sabe-se lá com qual tipo de instruções. Ele torcia para que essa troca pudesse retirar o medo do mundo como um mágico que levanta um pano e mostra que o tigre tinha virado dez pombas. Se levantou para se sentar à mesa mais próxima, a primeira mesa, mas no mesmo instante o homem da primeira mesa olhou o relógio, exclamou algo e se dirigiu ao telefone que ficava em um canto do café.

Nove e doze. Ele pensou em tentar o segundo. O homem da segunda mesa tinha uma pasta. Como ele não havia pensado que seu contato também teria uma pasta! Ele se levantou novamente, mas parou no meio do movimento. Um homem virtuoso…a senha.  Fora embora no mesmo instante em que a epifania da pasta havia chegado. Ele bebeu o último gole de café e notou que o homem da terceira mesa também tinha uma pasta. Dois homens e nenhuma senha. A moça do balcão começou a mexer na máquina de café.

Nove e treze. Quando jovem, ele era um bom aluno e membro das equipes esportivas do colégio e de universidade. Poderia ter feito como seus amigos da época e se tornado um bom advogado e ótimo atleta ocasional, mas à época a carreira era como uma bela dama sussurrando em seu ouvido os segredos mais obscenos. Seu primeiro superior falava sempre das cortesãs de Macau e do gim servido nos bons clubes de cavalheiros. As paredes do café de agora eram tão cinzentas quanto sua única gravata. Um homem é parceiro da virtude se encara o mar aberto?

Nove e quatorze. A garoa do lado de fora havia virado chuva. O homem da primeira mesa voltou para seu lugar original. Ele pensou em simplesmente perguntar em voz alta se alguém ali estaria esperando ser abordado por um homem que afirmaria algo sobre virtude e água gelada. Seria uma opção se não fosse a chance, alta, de acabar a frase parecendo uma peneira, cortesia da ameaça constante dos homens invisíveis que vendiam segredos. Ele pensou em pedir outro café, mas estava corroído demais por dentro para falar.

Nove e dezessete. Ele pegou a pasta e saiu pela chuva. O homem da primeira mesa, assim como o a segunda e o da terceira, permaneceu em seu lugar. No hotel ele escondeu a pasta no forro do banheiro. Ligou o rádio no volume máximo.  Enquanto a corda se apertava em seu pescoço o locutor dizia para que a população local não saísse de suas casas. Um tigre havia fugido do circo.

Feliz ano novo

                O texto abaixo é uma recriação do conto “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca, publicado no livro de mesmo nome. Não sei se é melhor ler o original ou a minha versão primeiro – e se não for pedir muito, eu gostaria que vocês deixassem nos comentários suas impressões, indicando a ordem das leituras. Independentemente disso, recomendo de maneira enfática a leitura do original, que é um texto da melhor qualidade.

 

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Vi na televisão que as lojas na periferia estavam vendendo roupa nova feito água para o réveillon. Vi também que os mercadinhos que vendiam galinhas vivas, farinha e aguardente estavam quase no final de seus estoques.

Fifi, creio que vou colocar a champanha de uma vez na geladeira para a noite.

Fifi entrou no banheiro e disse, onde está a toalha?

Use a outra toalete, essa ainda não está pronta.

Fifi saiu e foi ao banheiro de um quarto.

Quem trouxe a TV para você?, Fifi perguntou.

Ninguém trouxe pra mim. Eu mesmo comprei, os documentos da aduana estão na gaveta logo abaixo. Ora Fifi! Você acha que eu realmente preciso que alguém traga para mim as novidades do exterior?

Estou morrendo de fome, disse Fifi.

Daqui a pouco nós estaremos fartos de canapés, caviar, e bebidas várias, será uma verdadeira orgia gastronômica! Disse eu, troçando.

Não conte comigo, disse Fifi. Você se lembra do Comendador Albatroz? Na última festa de Natal em minha casa ele se fartou de comer até ter uma congestão, saiu de lá numa ambulância. Parece que ainda hoje está de cama.

O Fifi sempre se preocupou com a alimentação. Eu não. Sempre fui um sibarita à mesa. Conheço os melhores spas do país. Como sem preocupações.

Acendemos uns charutos e ficamos ouvindo algumas árias de Rossini. Esplêndido. O disco acabou, coloquei um de Schubert. Divino.

Nas favelas estão todos felizes, vão entrar o Ano-novo mexendo aquelas ancas largas, já viu como os mulatos dançam? Sacodem os quadris, acho que é pra mostrar a enorme vontade deles e delas de procriar, já que não podem fazê-lo abertamente. São todos promíscuos. A vida deles é procriar e gerar mais mulatos pobres.

Ainda bem que fazem isso bem longe daqui, disse Fifi. Ele falava devagar, complacente, morno.

Fifi, você foi talhado para as altas rodas, para coquetéis, é um homem de estirpe, isso sempre acontecerá longe de você, não importa onde você esteja. O máximo que você pode fazer é ver os barracos a caminho do Galeão.

Por alguns instantes eu pensei em como deve ser a vida desses favelados. São tantos.

O Doutor Carmelo entrou na sala, nos viu absortos e disse, mas o que é isso, meus caros?

Ora, ora, mas que bela surpresa, disse Fifi.

Mas o que fazem os senhores assim tão calados? Disse o Doutor Carmelo.

Estávamos aqui pensando, disse Fifi.

Schubert é divino.

Essa casa não receberá mais uma festa de arromba? Perguntou o Doutor Carmelo.

Ele estava pensando na vida nos casebres.

Essas pessoas devem ter uma vida péssima, disse Fifi.

Mas então levantemos estes ânimos!, disse o Doutor Carmelo.

Nosso amigo está querendo se empanturrar de caviar hoje, disse Fifi.

Foi apenas uma brincadeira, eu disse. Afinal, eu e o Doutor Carmelo sempre nos ajudamos quando nossos negócios coincidem e, apesar do último não ter sido muito satisfatório, eu consegui com ele comprar mais um apartamento. Nós nos respeitávamos.

Sinceramente, não é uma ideia ruim comer e beber bem para afogar as mágoas, disse o Doutor Carmelo. As coisas não andam fáceis. Esse país já viu dias melhores, viram o que aconteceu com o Caldwell? Perdeu todas as locomotivas. O Anacleto, tão meu amigo, perdeu quase todas as fazendas em um negócio envolvendo celulose. Coitado, frequentamos o colegial juntos em São Paulo, um homem tão arguto, apesar da gagueira. Agora sobraram apenas as estâncias no Uruguai.

Pior foi com o senhor  Bourdain. Morreu de desgosto.

É, meus caros, disse Fifi. Mas me recuso a esquecer dos problemas pela boca.

Em breve vocês verão.

Veremos o quê?, perguntou o Doutor Carmelo.

Estou apenas esperando o Conselheiro Curtiss chegar de Munique para a festa hoje.

E qual seria seu interesse na chegada do senhor conselheiro?, disse o Doutor Carmelo.

Ele me ajudará com minhas propriedades em Angra dos Reis.

Angra dos Reis?!, disse o Doutor Carmelo. Você está louco.

Eu ri.

Quais são suas ideias?, perguntou o Doutor Carmelo.

Vender algumas casas antes e outras depois de um fato que certamente mudará a região. Não só, mudará o Brasil.

Mas ora!, disse o Doutor Carmelo. E você remoendo suas tristezas ao som de Schubert.

Esperando a meia-noite para avançarmos sobre os quitutes, disse Fifi. Ele faria sucesso nos palcos, caso fizesse um monólogo cômico.

Fumamos. Abrimos um uísque.

E quais são as propriedades?, disse o Doutor Carmelo.

Subimos as escadas e fomos ao meu escritório. Tirei o quadro do lugar e abri o cofre.

Essas plantas-baixas eu preparei para mostrar ao Conselheiro Curtiss hoje.

Eu abri os rolos de papel. Os tubos com os desenhos eram pesados. Abri-los com cuidado.

Fomos ao outro lado do escritório e eu depositei as folhas sobre a escrivaninha. Abri primeiro a planta de quatro casas de um condomínio próximo à praia e entreguei-a para o Doutor Carmelo. Adorei as casas, disse o Doutor Carmelo.

São um tanto antigas, mas adoráveis, eu disse.

Doutor Carmelo pegou o prospecto de um terreno. Ótimo, ótimo, ele disse. Depois abriu a planta de um bangalô, levantou-o à altura dos olhos e disse: ainda terei um como esse, para as férias de verão, sabe como é, para sair da cidade e aproveitar as boas amizades.

Deixamos tudo por sobre a mesa e ficamos olhando.

Terminamos nossos charutos.

Quando é que isso tudo começa a mudar de mãos?, disse o Doutor Carmelo.

Daqui a seis meses. Irão construir uma usina atômica na cidade. O Conselheiro Curtiss deverá confirmar as boas novas de Munique.

Ele é um homem notável, disse o Doutor Carmelo.

É notável e com motivos. Já serviu em todo o Elizabeth Arden, para não falar o que fez aqui no Rio. Uma bela carreira.

É, mas correm rumores que ele tem hábitos estranhos…disse o Doutor Carmelo.

Não os conheço, e nem gostaria de saber sobre. Comigo sempre se comportou como um cavalheiro.

Você já o viu com alguma senhorita?, disse o Doutor Carmelo.

Não, nunca vi. Pode ser que haja algum fundamento, mas que importa?

Um homem deve se comportar com retidão. Ainda mais um senhor importante como o Conselheiro Curtiss, disse o Doutor Carmelo.

Homens importantes são livres para fazerem o que bem entendem, eu disse.

É verdade, disse o Doutor Carmelo.

Ficamos calados, acendemos novos charutos.

E os demais convidados, que não chegam, disse o Doutor Carmelo.

Ainda é cedo. De qualquer forma, é hora de deixar de lado estes papeis.

O Doutor Carmelo bafejou a fumaça do seu cubano, tentando fazer figuras no ar. Talvez ele estivesse com fome.

Me veio à cabeça novamente a imagem dos barracos nas favelas, da pobreza nos conjuntos habitacionais. As pessoas que talvez iniciassem o ano sem sequer um pernil gorduroso para comer. Famílias aglomeradas em um só cômodo, sem nenhum motivo para ter uma noite alegre. Essa poderia ser a vida de algum serviçal da casa.

Os novos charutos acabaram. O uísque também. Começou a chover.

Lá se vão alguns convivas, disse Fifi.

Quais? Alguém viria sem carro?

Não sei, mas sempre há algum desistente, disse o Doutor Carmelo.

Descemos para a entrada da casa. Um farol apareceu no portão, o porteiro atendeu. Os garçons trouxeram as champanhas e alguns quitutes. Mais faróis no portão. Velhos amigos e suas jovens esposas começaram a entrar e nós nos encaminhamos para o salão.

Alguém chegou em um Opala, um convidado com um amigo artista de televisão. A festa começou a ficar animada. A noite até então estava perfeita.  Uma soirée íntima, mas não reservada demais. O Fifi colocou no estéreo um disco com marchinhas de carnaval, começamos a cantar a dançar. Vimos três homens encapuzados.

É um assalto, um deles gritou bem alto, abafando mesmo o som da música. Se vocês ficarem quietos ninguém se machuca. Você aí, apaga essa porra dessa vitrola!

Dois deles saíram do salão e vieram com três garçons, uma cozinheira e a governanta. O porteiro deve ter fugido. Deita todo mundo, disse o que havia ficado.

Ficamos deitados em silêncio, quietos, apavorados com o que estava acontecendo. Os homens nos olhavam como se sequer considerassem-nos seres vivos.

Tem mais alguém na casa?, perguntou o que parecia ser o líder do bando.

Minha mãe. Ela está lá em cima no quarto. É uma senhora doente, disse minha esposa. Foi a primeira vez que eu ouvi a voz dela no dia.

Crianças?, ele voltou a perguntar.

Estão em Cabo Frio, com os tios. Minha esposa os havia mandado para lá na esperança de que, conosco a sós, um milagre ocorresse.

Gonçalves, vai lá em cima com a gordinha e traz a mãe dela, disse o homem.

Gonçalves?, respondeu o mais baixo dos três.

É você mesmo. Tu não sabe mais o teu nome, ô burro?, disse o líder.

O baixinho pegou minha esposa e subiu as escadas.

Inocêncio, amarra os barbados, completou o líder.

O que tinha ficado calado até o momento amarrou a mim, ao Fifi, ao Doutor Carmelo, ao Conselheiro Curtiss e a todos os demais com cintos, fios de cortinas, fios de telefones, tudo que encontrou.

Nós fomos revistados. Pegaram nossas carteiras, arrancaram os relógios dos nossos pulsos. Tiraram também as joias das mulheres, pegaram tudo que fosse de ouro, platina ou diamantes. Colocaram tudo em um saco amarfanhado.

O que havia saído desceu as escadas sozinho.

Cadê as mulheres?, disse o líder.

Engrossaram e eu tive que botar respeito, disse o baixinho.

O líder subiu. Nós podíamos ouvir seus passos no andar de cima. Eu pensei na minha esposa. Com ternura, pela primeira vez em muito tempo. Ele voltou abotoando a calça.

Vamos comer, ele disse, colocando a fronha da minha cama dentro de sua saca.

Nós continuávamos quietos, enregelados. O puto que se mexer eu estouro os miolos, disse o líder em um rompante.

Então, de repente, o Conselheiro Curtiss disse, calmamente, não se irritem, levem o que quiserem, não faremos nada.

O líder ficou encarando o Conselheiro Curtiss. Encarando o lenço de seda que ele usava ao redor do pescoço.

Podem também comer e beber à vontade, disse o Conselheiro Curtiss.

Os três homens continuavam a encarar o Conselheiro Curtiss.

Como é seu nome?, perguntou o líder.

Maurício, respondeu o Conselheiro Curtiss.

Seu Maurício, o senhor que se levantar, por favor?, disse o líder.

Ele se levantou. O líder desamarrou os braços dele.

Muito obrigado, o Conselheiro Curtiss disse. Vê-se que o senhor é um homem educado, instruído. Os senhores podem ir embora, que não daremos queixa à polícia. O Conselheiro Curtiss disse isso olhando para nós, fazendo um gesto para que nós ficássemos tranquilos, que estava tudo bem.

Inocêncio, você já acabou de comer? Me traz uma perna de peru dessas aí, disse o líder. Ele comeu a perna de peru inteira, com avidez. Pegou uma arma e carregou com uma bala em cada cano.

Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede?, disse o líder.

O Conselheiro Curtiss se encostou na parede.

Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho pra cá. Muito obrigado, disse o líder.

O homem atirou bem no meio do peito dele, usando os dois canos, fazendo um estrondo ensurdecedor. O impacto jogou o Conselheiro Curtiss com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No seu torso havia agora uma cratera terrível.

Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma, disse o líder.

Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, disse aquele chamado de Inocêncio.

Nós continuávamos no chão, agora com os olhos fechados, imóveis. Um dos assaltantes arrotou.

Você aí, levante-se, disse aquele chamado de Inocêncio. Ele apontava para o ator de televisão.

Por favor, sussurrou o rapaz.

Fica de costas para a parede, disse aquele chamado de Inocêncio.

O líder carregou novamente a arma. Atira você, o coice dela machucou meu ombro. Apoia bem a culatra senão ela te quebra a clavícula, disse o líder.

Vê como esse vai grudar, disse aquele chamado de Inocêncio, e atirou. O ator voou, os pés saíram do chão como se ele tivesse dado um salto para trás. Bateu com estrondo na porta e ficou ali grudado. Por alguns instantes o corpo dele ficou preso na madeira pelo chumbo das balas.

Eu não disse? Esse canhão é foda, falou aquele chamado de Inocêncio, enquanto esfregava o ombro.

Não vais comer uma bacana destas?, perguntou o baixinho para o líder.

Não estou a fim. Tenho nojo dessas mulheres. Tô cagando pra elas. Só como mulher que eu gosto, disse o líder.

E você…Inocêncio?, perguntou o baixinho.

Acho que vou papar aquela moreninha, ele respondeu.

A moça, sobrinha de minha esposa, reagiu ao assédio, mas foi esmurrada por aquele chamado de Inocêncio. Ela então ficou estática enquanto era estuprada no sofá.

Vamos embora, disse o líder. Eles pegaram as toalhas das mesas e fizeram-nas de sacos, enchendo-as com a comida e a prataria.

Muito obrigado pela cooperação de todos, disse o líder. Nenhum de nós respondeu.

Eles saíram. Nós ouvimos o som de pneus cantando na rua.

Começamos a nos levantar, tentando desamarrar as mãos. A sobrinha de minha esposa chorava em silêncio. Outras moças começaram a chorar também. Fifi debruçou-se sobre o cadáver do Conselheiro Curtiss.

Meu Deus. Meu Deus, disse o Doutor Carmelo, enquanto tentávamos apurar o que havia sido roubado. Fifi testava o telefone, esquecendo-se que seu fio fora arrebentado da parede.

Fomos eu e o Doutor Carmelo para o andar de cima. Vi minha sogra morta no chão do corredor. Comecei a chorar. Minha esposa estava com o vestido rasgado, morta, sobre a cama.

No escritório, as gavetas estavam todas reviradas. Os projetos, que não havíamos recolocado nos cofres, estavam espalhados pelo chão.

Alguém no andar de baixo começou a clamar, exaltado, pela polícia.

Descemos. Sentei-me no chão, apoiando a cabeça entre as mãos. Fifi e o Doutor Carmelo fizeram o mesmo.

Os garçons saíram, um deles disse que ia até o posto policial mais próximo. Na rua um bêbado gritava: feliz ano novo!

O tradutor segue

-Tem alguém aqui? – Ela disse, apontando para um espaço indefinido na areia. Era óbvio que não havia ninguém ali, mas como nós somos seres de boa vontade, além de não lusitanos, perdoamos as perguntas de sentido abstrato que as pessoas fazem.

-Não, não…fique à vontade. – respondi, sem tirar os olhos do mar. As ondas, ou a combinação das ondas e seu barulho aterrador com o sol forte na cabeça e a cerveja, me deixam hipnotizado. Eram minhas primeiras férias de verdade em alguns anos, culpa da vida inglória de autônomo. Com o agravante que elas foram acidentais. Apesar dos anos e horas curvado sobre originais de escritores hispano-escreventes obscuros, engastando os termos certos na métrica e no espírito dos poemas, lutando contra a inquietude inerente à eterna incompletude da profissão de tradutor e as dores na base da coluna, o que fez mesmo o dinheiro sobrar fora um acidente.  Num dia absurdo de chuva e vento – e aqui penso sobre como a literatura transformou uma possibilidade meteorológica real em um imenso e não recomendável lugar comum -, me encontrei por acaso com o Tomás, ex-colega de escola, que agora trabalhava como produtor de televisão. Ele usava rabo-de-cavalo. Fomos tomar um café protocolar e ele me perguntou se eu ainda tinha meus “poemas malditos” (como ele chamou) guardados. Infelizmente para meu respeito próprio, sim, eu tinha. Ele respondeu que eles se encaixavam “como uma luva” em um personagem de um seriado que ele iria produzir. Programa para adolescentes, o protagonista seria um jovem introspectivo e torturado que à noite ganha superpoderes e tenta conquistar sua amada que mora no alto de uma torre de apartamentos luxuosos enquanto luta contra as forças do Maowl – sim, o vilão se chamaria Maowl, e eu sinceramente não vejo como alguém poderia assistir ao programa sem um sangramento auricular. O ponto é que a emissora planejava lançar uma série de produtos relacionados com o programa, incluindo poemas escritos pelo jovem herói, uma estratégia de crossmedia apoiada pelos órgãos de incentivo à leitura. Meus “poemas malditos”, caso eu aceitasse a proposta, passariam a ser de autoria da emissora, sob a assinatura do jovem herói. Trocamos nossos contatos – o dele num belo cartão colorido com bordas redondas, o meu anotado num guardanapo do café – e em alguns dias meu e-mail estava enfeitado pela proposta mais indecorosa que eu já havia recebido. Porque se publicar aquelas coisas horríveis já seria uma falta de respeito, o dinheiro que eu receberia por aquele sacrilégio então era um despautério sem tamanho. Aceitei antes que a barra de “desfazer o envio” da secretária da emissora sumisse. Agora, um mês depois, com os livros de poemas de Iounan Bravo, o galã de Tempestade Noturna, vendendo feito paçoca, cá estava eu olhando o mar do sul da Bahia numa tarde melada.

O Oscar chegou com mais cervejas. O olho ruim dele já estava batendo para o lado errado de tanto beber – o lado certo é para a esquerda, o que acontece quando ele, sóbrio, dá risadinhas. Antes mesmo de sentar ele fez um barulho parecido com um pigarro, que eu sabia ser um sinal para que eu prestasse atenção em alguma coisa importante, mas que ele não poderia enunciar. Sem terminar de virar a cabeça para o lado dele, percebi que a coisa à qual eu deveria atentar era a moça da pergunta. Moça não, evento. Como em um desenho japonês ruim, as ondas pararam seu marulhar infinito por alguns instantes, talvez sabendo da minha dificuldade em parar de prestar atenção nelas. O seu Goldemberg, meu chefe em tempos quase imemoriais, dizia que as mulheres podem ser divididas em três categorias: as bonitas, as lindas e as que te fazem engasgar. Essa era do terceiro tipo, sem dúvida.

O Oscar, sem que eu terminasse minha devida apreciação, começou a ser mover atrás de mim. Supus, com razão, que ele iria colocar em prática sua incrível habilidade de fazer amizades. Todas as últimas boas festas em que eu havia estado começaram com um convite do Oscar. A outra grande habilidade dele era a sua péssima imitação de macaco, que eu gostava de chamar de “roupa do rei”, porque ela dividia o mundo entre os sensatos e os que a achavam divertida. Ele agora, andando em direção àquele desafio ao princípio de que a beleza, assim como todas as coisas, tem limite, mostrava mais uma habilidade, a de materializar copos descartáveis. Ele não estava com os copos quando parou ao meu lado. Tudo muito estranho. Ele começou a falar:

-E aí, tudo bem?

-Tudo – disse ela, e sorriu.

-Eu sou o Oscar, aquele ali é o Júlio, meu amigo. Ele é tradutor. Aceita cerveja? – Todas as vezes em que o Oscar me apresentou para alguém, ele me introduz como “o tradutor”. A Terra parará de girar e todas as top-models engordarão cem quilos antes que ele pare com esse costume. Isso serve para que eu me legitime como pessoa aos olhos dele, ou é uma forma de acrescentar uma aura de exotismo que ele gostaria que eu tivesse, ou talvez esses pensamentos tenham sido apenas alguns segundos de devaneio induzido pela cerveja e pelo barulho do mar, que voltara sem pedir permissão.

-Aceito!

-Senta aqui com a gente. Você é a…?

-Teresa.

-Teresa, nome bonito.

Ela se levantou e andou, na minha direção, pelos três metros que nos separavam. Eu podia ouvir a areia agradecendo pela massagem que aqueles pés macios e bem formados faziam. Um menino passou correndo em direção ao mar pelas costas dela. Ela jogou as pontas da toalha, estampada com flores, para o alto, para estendê-la sobre a areia.

Alguém na barraca que nos abastecia de cerveja e peixe frito, dieta básica da semana de férias na praia quase isolada, ligou o rádio. O ambiente foi preenchido pela voz da Ivete Sangalo. Eu preferia as ondas.

-Mas então, Teresa, de férias? – O Oscar perguntou, e os dois começaram uma conversa sobre temas triviais, os únicos possíveis quando se acaba de conhecer alguém. Em algum lugar do país alguma mocinha de quatorze anos poderia estar lendo os versos “bate em meu peito como um aríete louco / e faz de minh’alma puída  tão pouco”, e eu fiquei aliviado em pensar que o autor agora era o fictício senhor Bravo. O menino, já no mar, gritou para pessoas que acenaram da barraca. O papo banal continuava ao meu lado, o tema era a própria praia. De perto a voz dela era decepcionante. Teresa se deitou enquanto Oscar falava sobre os problemas de nossa ida de carro até o local. Ela se esticava, a coluna formando uma parábola suave, as pontas acobreadas dos dedos roçavam a areia, o mundo se inclinava para não ficar desconforme sua peça mais bem feita. O mar voltou a ser a único som

-Languidescer.  – eu disse. Os dois olharam para mim como se a estátua de Tiradentes finalmente tivesse revelado seu jogo de purinha. – Languidescer. Esse verbo é seu, Teresa.

-Anh?

-Você – e gesticulei de forma vaga ao redor, tentando juntar a tarde úmida, o horizonte da mata no limite da praia e as gotículas de suor da nuca dela – merece esse verbo. Languescer não, que é ruim. Languidescer. – E olhei para ela, depois para o olho ruim do Oscar que batia rapidamente, depois para ela de novo.

-Isso existe? – Ela disse com ares de quem acaba de descobrir a fala.

-Em português, não. Mas pode vir a existir, e se vier, ele é seu.

O Oscar franziu o cenho, que é a atitude mais mal descrita do mundo, e abriu a boca. Fechou-a logo em seguida. O menino passou correndo de volta para a barraca e foi recebido com algumas exclamações alegres.

Descobriríamos mais tarde que no Recanto do Albatroz, a pousada onde ela estava hospedada, haveria sempre um grupo de holandeses bem humorados e o seu Marcos, o dono, estaria sempre lendo alguma edição antiga do Jorge Amado, escondendo seu rosto de foragido bonachão.

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Esse texto é uma continuação não-oficial deste aqui.

Consultórios

O médico disse:

-Por via das dúvidas, sente-se.

O paciente, confuso, obedeceu. O médico prosseguiu:

-Meu caro, eu e minha equipe chegamos à conclusão que…bem… – e olhou para os assistentes no canto da sala, para o horizonte cinzento para além da janela, e de volta para o paciente -…que…seu cérebro está se atrofiando.

O consultório ficou em silêncio por alguns instantes. O paciente disse:

-Eu vou morrer?

O médico, após pensar na imbecilidade da pergunta, uma vez que todos nós iremos morrer em algum momento, compreendeu o que ele queria dizer, e respondeu:

-Não sabemos.

 

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A sala de espera é pequena. A mesa da secretária ocupa quase metade do espaço, o resto é tomado por duas cadeiras de vime e um móvel cuja metade de baixo abriga as inevitáveis revistas do semestre passado e a metade de cima um filtro d’água. Na parede oposta às cadeiras, os títulos do dermatologista em ordem cronológica. Mais próximo da porta de entrada,  o diploma da Faculdade de Medicina. Ao lado da porta da sala de atendimento, um certificado de descida do rio Okawango, concedido pela Secretaria Nacional de Florestas da Botsuana.

Na cadeira da esquerda, um homem que já poderia ser chamado de senhor pelas crianças mais educadas. Adiantado para a consulta, como era de seu costume, ele lê uma coletânea de ensaios sobre o liberalismo contemporâneo. Entra uma mulher que ninguém estaria tomando liberdades demais em chamar de mocinha. Ela obviamente se senta na cadeira da direita, e seu peso faz o vime ranger languidamente. A secretária a pergunta sobre a consulta do dia revelando certa intimidade da moça com os procedimentos do consultório.

Como num começo de ficção erótica ruim, ele olha os cabelos em desalinho e a blusa de brechó da mocinha. Ela encara as calças de corte antiquado e os óculos de aros grossos dele, desafiadora, e puxa um livro de Saul Bellow, versão original, da bolsa. O médico abre a porta de sua saleta e chama o homem. É provável que ele nunca descubra o que acabou de abortar.

 

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-Prazer, doutor Marcos.

-…

-Diga, o que te aflige?

-Bem, o senhor tem doutorado?

-Não. Por quê?

-Porque você se apresentou como doutor.

-Ora – e era a primeira vez que contestavam o direito que ele cria sagrado desde o princípio de sua carreira -…porque é o costume.

E o debate seguiu até que dois enfermeiros separaram a briga no corredor Três, tão violenta que Bernardo até se esqueceu da enxaqueca que o fez sair de casa no sábado.

Domingo, uma da manhã.

Sem sono, saí para dar uma volta. Quase uma da manhã de domingo, ou segunda de acordo com aqueles que acreditam que o dia realmente acaba à meia-noite. A vizinhança, quase segura, ainda permite essas excentricidades para os insones e os amantes afobados. Nas janelas de um ou outro apartamento era possível acompanhar as aventuras do Steven Seagal no Domingo Maior. Uma pena não ser aquele filme em que ele detona um bar usando uma bola de sinuca como arma.

Rumei para a avenida. Sabe, as ruas das casas são muito sossegadas, e um mundo congelado é o terror dos insones. A avenida com seu comércio quase todo fechado a essa hora não é muito melhor, mas sempre resta a esperança de uma viatura em alta velocidade. Noite fresca, resolvi chegar até a esquina dessa avenida com a outra, essa sim movimentada a qualquer hora. No encontro das duas vias fica o posto de gasolina. Fui para a loja, aberta apesar do momento ingrato.

Sentado no meio-fio que impedia os carros de varar a vidraça loja de conveniência adentro estava o Simba. Não sei o motivo do apelido, o Otávio me fora apresentado assim e  assim sempre esteve apropriado. Como quase sempre, o Simba estava lendo. Esse hábito malsão já havia lhe custado duas costelas (leitura durante a travessia de uma rua), uma namorada (interrupção do sexo motivada por uma suspeita necessidade de conferir um verso) e consumia sua visão com um canudinho (para ficar num exemplo instantâneo, as luzes da loja eram ótimas só para quem estava dentro da loja). Perguntei:

-Não tem poltrona em casa não, meu velho? – Ele levantou os olhos e abriu a boca duas vezes antes de começar a responder.
-É o calor… – e abanou a gola da camisa com a mão que estava livre. – Sente-se aí, meu velho. – Nós nos chamamos de “meu velho” por hábito de grupo. Os amigos de infância do Simba, que aconteciam também de ser os meus, só que alguns anos depois, assim o faziam.

-Vou ali pegar alguma coisa. Cerveja?

-E por que não?

Os dez reais que eu levava no bolso para o caso de um assalto financiaram a bebida. A menina do caixa devia ter uns dezesseis anos e  era muito provavelmente a pessoa menos apropriada para tomar conta de um posto de gasolina de madrugada. Saí e sentei-me ao lado dele. Perguntei:

-E esse livro aí, bom? – O Simba balançou a cabeça, me olhou de soslaio, pesou as palavras na boca. Ainda completou a leitura de uma frase antes de responder:

-É quase. A história até vai, mas quase todo final de parágrafo tem uma derrapada poética. – E ao dizer “derrapada poética”, coisa que só ele diria, o Simba deu um suspiro. O que vinha a ser suspeitíssimo, porque ele não é um homem de suspirar por isso.

-Conte-me mais, meu velho.

-Então… – e ele acariciou a barba castanha da bochecha -…quer um conselho?
Eu já vi um parto de uma baleia, um festival de heavy-metal e pulei de pára-quedas. Um conselho do  Simba seria mais um feito para a galeria das coisas impressionantes. Respondi:

-Se você achar que eu mereço… – um carro com adesivo de uma empresa de segurança parou ao nosso lado. Um homem desceu e entrou na loja. O Simba disse:

-Nunca leia um livro só porque você quer comer a autora.
Se as câmeras de segurança tivessem registrado a cena com som, o gerente poderia vender as fitas para algum filólogo, que as enxertaria no verbete “desconcerto”. Eu, calado, desviava o olhar da capa do livro (chamado “Tiros mudos” ou algo do gênero) e a cara de pedra do Simba. Perguntei:
-Mas você a conhece?
-Não. Acho que ela mora no Recife. Ou em Florianópolis. Não sei. Mas vê se dá pra resistir a isso. – E ao terminar a frase ele me mostrou a orelha do livro. Uma mocinha nos seus vinte e alguma coisa sorria para mim, cabelos encaracolados e vestida de um jeito propositalmente desleixado.  Olhei para ele de volta e ele disse alguma coisa, mas no exato momento um ônibus, quase vazio, passou em direção ao centro. Os olhos dele drenaram minha coragem de pedir para que ele repetisse.
Terminamos as cervejas em quase-silêncio, ou silêncio interrompido pelos muxoxos do Simba e pela conversa animada do homem com a menina da loja, levemente abafada pela vidraça. Após alguns minutos me despedi. Ele disse que só faltavam trinta páginas e continuou sentado, apertando os olhos e, suponho eu, amaldiçoando a vida.

nota do autor: perdoem a má diagramação. O problema, espero eu, será solucionado em breve. 

Sábado

SÁBADO

I – MANHÃ

O mundo está como nunca deveria ter deixado de ser

para eles, homens, brancos, de meia idade, ricos

e heterossexuais. No pequeno feudo de torres de concreto,

homônimas de ícones da reação, ninhos de pretensos mazombos,

as mulheres cuidam da propriedade e as crianças dormem.

Nas ruas, uma invasão de bermudas cáqui e meias brancas

ocupa despreocupada os sacolões, padarias e açougues,

(LARGATO NA PROMOÇÃO e a língua pela hora da morte)

cumprindo com o papel destinado aos nobres senhores pela natureza:

alimentar a todos com a caça abatida a tiros de crédito e débito.

Apesar do começo de primavera, chovem pequenas folhas secas

de outono parisiense que só uns poucos na rua conhecem.

É hora também de cortar os cabelos que sobram, brancos como

a dentição – postiça ou não – de seus donos. O cabeleireiro diz:

I’m not a crook! – mas os clientes não se importam com límpida

sinceridade. São poucas as aberrações. Ali um pobre ou preto,

acolá um casal de boiolas – gay em qualquer outro lugar,

aqui, sincera e unicamente boiola. O sol brilha até sobre os ônibus.

Os senhores são senhores do tempo e do material, imperadores

coroados pelo berço e fardados com camisas pólo bem passadas.

Irradia dos caminhantes, já com sacolas nas mãos, uma felicidade

mansa, apaziguadora. O horror se manifesta apenas nas frentes

dos jornais que todos ali fazem questão de ignorar. O meio do dia

aparece no horizonte carregado pelo aroma dos frangos de padaria e

saudado pelo espocar das primeiras latinhas de cerveja.

II – TARDE

Calor e frio se igualam nos efeitos, contrariando as teorias químicas,

ou ainda, qualquer pensamento. A hora é de ócio modorrento.

A luz desaba pesada sobre os telhados e cabeças, encurta os passos

e a vontade. Todos languidecem sem nem mesmo saber como se pratica

esse esporte. Alguma alma desavisada poderia andar pelas ruas do bairro

e constatar que as televisões cantam em uníssono para ninguém.

A luta de classes e lugares foi superada por um torpor róseo e bom.

Há os heróis da resistência, piromaníacos do final de semana, brincando

de Nero e espalhando em colunas cinzentas o alarme dos instintos.

As vítimas da fumaça lamentam a sorte e sonham com um convite para

o ritual festivo e sibarita do churrascão. Os pássaros pousam.

Nos quartos cresce, como bolor, uma tensão de cerca de fazenda.

Se quente, a vontade de tirar a roupa, soprar nucas até o arrepio, lamber

suor, encontrar a exaustão dormindo com a cabeça desanuviada.

Se frio, o clamor da proximidade, gerar calor pelo atrito, pontas rijas,

o refúgio nu dentro de um iglu de lã cinza como o céu da suposta

primavera. Um tarol de banda marcial sobrepõe-se aos bumbos e cavacos,

ensurdece os espectadores do filme inocente, desnorteia os boleiros

temporões e amedronta as famílias. Marcam seu compasso os chuveiros

ligados, a troca frenética de mensagens, as ligações terminadas pelo infalível

“passo aí oito horas, fechou?”. A luz, agora domada, incide oblíqua, anunciando

que todos os caminhos de agora em diante serão tortuosos.

III – NOITE

As usinas termoelétricas funcionam a todo vapor com suas caldeiras

abastecidas pelos livros e pelo hálito do cidadão comum, portador de

carteira assinada e do sonho de sobreviver até esse momento histórico.

Um filósofo (obra completa em doze tomos esquecida até que as universidades

retomem seus trabalhos em algumas dezenas de horas) grita pelas ruas

“É o elogio da inconsciência!”, recebendo como resposta brados confusos

e agudos, não se sabe se dos homens ou dos lobos que escalam as

montanhas. As disputas são ferrenhas. Batalha-se por lugares na fila,

parceiras, parceiros, resistência hepática. Todas as lutas são um desdobramento da

guerra subjacente entre a esperança e a experiência. As cicatrizes, mesmo

internas, são visíveis. Os senhores, tão alvissareiros sob o sol, agora estão

resignados em suas fortalezas, gritando “Boiolas!” e cuspindo de lado a cada

mirada pela janela, nos intervalos da programação televisiva. Filhos dos casarões

e dos casebres se misturam em fluxos e refluxos, ocupam os mesmos

anti-lugares – mas ai de quem propuser a mistura de saliva, controlada

rigorosamente pela avaliação de patentes: todos são comandantes,

mas a patente de entrada varia dos cinco aos quinhentos reais.

Bandeiras estampadas na pele, costuradas por escravos hondurenhos,

roubadas de defuntos, anunciam que apesar de todo o movimento, ninguém

sabe se há porto. A escuridão se deixa navegar facilmente, cobrando eventuais

pedágios de sangue e borracha queimada.

Um homem pulou de um prédio.

Um homem pulou de um prédio.

Um homem pulou do vigésimo nono andar de um prédio.

Um homem pulou do vigésimo nono andar de um prédio no centro de Belo Horizonte.

Um homem branco pulou do vigésimo nono andar de um prédio no centro de Belo Horizonte.

Um homem branco de meia idade pulou do vigésimo nono andar de um prédio no centro de Belo Horizonte.

Um homem branco de meia idade pulou pela janela de um banheiro do vigésimo nono andar de um prédio no centro de Belo Horizonte.

Um homem branco de meia idade, trajando terno e gravata, pulou pela janela de um banheiro do vigésimo nono andar de um prédio no centro de Belo Horizonte.

Um homem branco de meia idade, trajando terno e gravata, pulou pela janela de um banheiro do vigésimo nono andar de um prédio no centro de Belo Horizonte nas primeiras horas da manhã de segunda.

Um homem branco de meia idade, trajando terno e gravata, pulou pela janela de um banheiro do vigésimo nono andar de um prédio no centro de Belo Horizonte nas primeiras horas da manhã de segunda, atingindo o teto de uma Kombi.

Um homem branco de meia idade, trajando terno e gravata, pulou pela janela de um banheiro do vigésimo nono andar de um prédio no centro de Belo Horizonte nas primeiras horas da manhã de segunda, atingindo o teto de uma Kombi e matando os seis passageiros.

Um homem branco de meia idade, trajando terno e gravata, portando uma carteira com cartões de crédito, dinheiro vivo, habilitação e fotos da família, pulou pela janela de um banheiro do vigésimo nono andar de um prédio no centro de Belo Horizonte nas primeiras horas da manhã de segunda, atingindo o teto de uma Kombi e matando os seis passageiros.

Um homem branco de meia idade, trajando terno e gravata, portando uma carteira com cartões de crédito, dinheiro vivo, habilitação e fotos da família, pulou pela janela de um banheiro do vigésimo nono andar de um prédio no centro de Belo Horizonte nas primeiras horas da manhã de segunda, atingindo o teto de uma Kombi e matando os seis passageiros que se dirigiam ao trabalho em uma obra.

Um homem branco de meia idade, trajando terno e gravata, portando uma carteira com cartões de crédito, dinheiro vivo, habilitação e fotos da família, pulou pela janela de um banheiro do vigésimo nono andar de um prédio residencial de alto luxo no centro de Belo Horizonte nas primeiras horas da manhã de segunda, atingindo o teto de uma Kombi e matando os seis passageiros que se dirigiam ao trabalho em uma obra.

 

—-

 

Ainda não se sabem as razões do ato.

Burocracia como vocação.

Uma senhora rega uma vidraça

e eu, transeunte,

só posso esperar

que ela não cresça em árvore de cacos.

 

Uma copa de estilhaços só poderia

romper a rotina,

minha querida,

meu porto de águas quase paradas.

 

Partículas cortantes, corpo frondoso, voador,

nada pior

para quem vê

um dia passar quase igual ao outro.

 

Eu e minha pancinha simpática,

adornada pela

indefectível camisa

em tom neutro mal-enfiada nas calças,

 

cumprimentando os colegas da

repartição, os

contínuos e os

office-boys (mensageiros, que a repartição é auriverde).

 

Tarde após tarde na lida, as mãos

ressecadas do

trabalho incessante

de manipular e carimbar montanhas de papel.

 

Sonhei inclusive uma vez que

eu era dono

de um carimbo gigante.

Foi uma das noites mais felizes da minha vida.

 

Não nego que, mesmo com vocação,

a burocracia às

vezes aflige,

como nas noites em que não se tem um carimbo gigante.

 

Nesses momentos, ordenho prazer

justamente da

rotina, e o sorvo

como faria com uma colher de doce.

 

Vez por outra o colégio da vizinhança

libera mais tarde

suas vestais – que

sei, já não são virginais ou sagradas, mas me agrada o nome -

 

e com um relance da curva do torso

ou melhor, de

uma nesga generosa,

deliciosa de barriga lisa e dourada

 

construo uma tarde de maravilha.

Procurar moedas

no chão de pedra

portuguesa é outro lampejo de diversão.

 

São prazeres diferentes daquele

que é o melhor

de todos,

o muito obrigado de quem não vê meu serviço como uma pústula terrível de ineficiência.

 

Volto (seis horas e meia depois)

à vidraça.

Está inteira.

Como se abençoada pelo gênio dos dias que se assemelham,

 

padroeiro bendito da minha classe

e dono do (um

dia meu,

oxalá!) carimbo gigante.